Aurelian aproximou-se de Mercy e a puxou gentilmente pela cintura. Ele pressionou um beijo suave em sua têmpora. Era um gesto simples, mas carregava um significado profundo.
Evelyn percebeu. Ela observou a maneira como ele a segurava, a maneira como Mercy não resistia a ele, a compreensão silenciosa entre os dois. Por um breve momento, ela não soube o que sentir. Havia um conflito em seu peito, mas, sob ele, algo mais despertava. Algo mais suave.
— O que está acontecendo? — Perguntou Mercy.
Ela não perdeu tempo. Seus olhos moviam-se de um rosto para outro, buscando clareza.
John deu um passo à frente.
— Minha querida — disse ele calmamente —, esta é a senhora Townsend. Ela está aqui para vê-la. Acho que você deveria ouvir o que ela tem a dizer.
Mercy franziu a testa. Ela se voltou para Aurelian, mas ele não estava sorrindo. Isso, por si só, dizia tudo o que ela precisava saber. Algo estava errado.
Mas quando ele olhou para ela, sua expressão suavizou-se. Sua mão subiu e acariciou gentilmente o cabelo loiro dela.
— Eu estarei aqui. — Disse ele baixinho.
— Não se preocupe.
Antes que Mercy pudesse responder, Isla falou.
— Não. — Disse ela com firmeza.
— Isso é entre Mercy e Evelyn. Nós esperaremos lá fora.
Mercy piscou.
— O que quer dizer com "entre mim e ela"? — Perguntou.
— E o que quer dizer com neta? Alguém pode explicar o que está acontecendo?
Gabriel aproximou-se, colocando uma mão firme no ombro dela.
— Apenas ouça primeiro, então tudo fará sentido. — Disse gentilmente.
Então, ele se afastou.
Um por um, eles começaram a sair da sala. John saiu. Isla o seguiu. E Gabriel moveu-se logo atrás.
Aurelian não se moveu imediatamente. Seus olhos permaneciam em Mercy. Havia relutância neles. Mas ele entendia. Ele se aproximou mais uma vez.
— Estarei logo ali fora. — Disse ele.
Então ele se virou e saiu. A porta fechou-se suavemente atrás deles.
O silêncio preencheu a sala. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. Mercy permaneceu onde estava, cruzando lentamente os braços sobre o peito. Evelyn permaneceu sentada. Composta, observando-a.
— Você me chamou de sua neta. — Disse Mercy.
Sua voz era firme, mas havia confusão por baixo dela.
— Sim. — Respondeu Evelyn.
Mercy soltou um suspiro baixo.
— Acho que você deveria explicar isso. — Disse ela.
Evelyn assentiu.
— É por isso que estou aqui.
Evelyn levantou-se lentamente. Seus movimentos eram calmos e deliberados. Ela caminhou até uma pasta de couro que havia sido colocada cuidadosamente sobre a mesa mais cedo. Pegou-a e voltou para onde Mercy estava.
Ela não apressou Mercy. Não a pressionou. Em vez disso, falou com um cuidado silencioso.
— Meu nome é Evelyn Margaret Townsend. — Começou ela.
— Sou a matriarca da família Townsend.
Mercy nada disse, ela já conhecia esse nome; todos em Richbouph conheciam. Mas o que isso tinha a ver com ela?
Evelyn abriu a pasta. Dentro, havia um antigo álbum de fotos. Ela o segurou com delicadeza, quase como algo frágil.
— Este é meu filho. — Continuou ela.
— Victor Townsend.
Os olhos de Mercy permaneceram fixos nela.
— Ele se casou com uma mulher que eu amava muito. — Disse Evelyn suavemente.
— O nome dela era Eleanor.
Houve uma mudança em seu tom. Uma suavidade que não estava lá antes.
— Ela era gentil, doce e forte de maneiras que as pessoas nem sempre percebiam.
Evelyn abriu o álbum e o virou para Mercy.
— Olhe. — Disse ela.
A princípio, Mercy hesitou. Mas algo a impulsionou. Ela deu um passo à frente. Então, lentamente, olhou para baixo. A primeira foto mostrava um jovem casal. O homem era alto, com traços marcantes e familiares de uma forma que Mercy não conseguia explicar de imediato. Seu cabelo loiro e olhos azuis carregavam uma força silenciosa.
E ao lado dele estava uma mulher. Uma mulher linda e graciosa. Seu sorriso era doce e caloroso.
O fôlego de Mercy falhou. Seus dedos moveram-se levemente, quase como se quisesse tocar a imagem, mas tivesse medo.
Evelyn virou a página. Mais fotos surgiram. A mesma mulher e o mesmo homem. Momentos capturados no tempo. Havia risos e felicidade. Eles estavam cheios de vida.
Os olhos de Mercy começaram a se encher de lágrimas.
— Isso... — Sussurrou ela.
Sua voz tremeu. Evelyn observava-a com atenção.
— Aquela mulher — disse Evelyn gentilmente —, é sua mãe.
— Por anos. Silenciosamente. Pacientemente. — Ela olhou para Mercy com algo próximo do alívio.
— E agora... eu encontrei você.
Mercy balançou a cabeça devagar, sobrecarregada.
— Eu... — Ela lutava para falar. Todo o seu mundo havia mudado. Tudo o que ela sabia, tudo em que acreditava, parecia incerto.
Evelyn estendeu a mão, mas não a tocou.
— Eu sei que é muita coisa. — Disse gentilmente.
— Mas você não está mais sozinha.
Mercy olhou para ela e viu algo real. Não poder ou controle, mas anseio.
— Você é minha neta. — Disse Evelyn suavemente.
Mercy soltou um suspiro trêmulo. Suas lágrimas não paravam.
— Eu... — Começou ela, mas a voz falhou.
Ela virou-se ligeiramente, tentando se recompor. Seus olhos moveram-se para a porta.
Aurelian.
Ele estava logo ali fora. Esse pensamento a ancorou.
Evelyn a observava com cautela. Então, sua expressão mudou um pouco. Algo mais firme retornou.
— Disseram-me que você se casou com um membro desta família. — Disse Evelyn.
Mercy olhou de volta para ela. Suas sobrancelhas uniram-se levemente.
— Sim. — Respondeu ela.
Evelyn assentiu uma vez. Seu olhar aguçou-se.
— Mas veja bem. — Continuou ela.
— A família Wyndham... — Sua voz carregava peso agora.
— Eles são nossos inimigos.
As palavras assentaram pesadamente na sala. Mercy ficou imóvel.
As próximas palavras de Evelyn vieram com calma, clareza e finalidade:
— Este casamento não pode continuar, criança.
Silêncio. As lágrimas de Mercy pararam. Não porque ela não tivesse mais emoção, mas porque algo mais havia assumido o controle. Seus olhos endureceram ligeiramente. A confusão transformou-se em algo mais forte. E agora, a distância entre elas tornou-se real.

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