Mercy estava parada diante da penteadeira, as pontas dos dedos traçando a madeira fria e elegante. Ela encarava seu reflexo, não por vaidade, mas com uma intensidade silenciosa e investigativa, como se estivesse tentando reconciliar a mulher no espelho com a vida que levava agora.
Ela vestia um robe suave de renda de algodão fino, uma peça que parecia ao mesmo tempo delicada e substancial. Aurelian a presenteou no dia anterior sem nenhum motivo especial, apenas pelo desejo de vê-la sorrir.
Ao encontrar o próprio olhar, ela percebeu que ele havia conseguido; um sorriso suave e radiante brincava em seus lábios. Seu cabelo loiro caía em ondas naturais pelas costas, capturando o sol da manhã, enquanto pequenos brincos de diamante refletiam a luz a cada leve movimento de sua cabeça.
"Esta é realmente a minha vida agora?" Ela se perguntou em silêncio.
O toque do celular estilhaçou a quietude. Mercy atravessou o quarto até o criado-mudo e atendeu com um murmúrio de diversão.
— Alô?
— VOCÊ VAI SE CASAR SEM ME CONTAR? — Uma voz gritou pelo alto-falante.
Mercy soltou uma risada clara e genuína, balançando a cabeça.
— Por favor, pare de gritar. Onde você está?
— Eu estou literalmente parada no meio da propriedade Wyndham. Meu Deus, Mercy, isso está acontecendo de verdade!
A linha caiu abruptamente, deixando Mercy rindo sozinha.
— Algumas coisas nunca mudam. — Sussurrou ela. Ela pousou o telefone, calçou os sapatos e saiu para o corredor. A casa estava envolta em seu costumeiro e digno silêncio enquanto ela se dirigia aos jardins.
No entanto, a paz durou pouco. Ao chegar ao limite da propriedade, uma frota de SUVs pretos entrou pela unidade de acesso. Ela franziu a testa; os Wyndhams eram planejadores meticulosos, e nenhum convidado havia sido anunciado para aquela hora. Ela hesitou, quase voltando para o jardim, quando uma voz a parou subitamente.
— Mercy.
Ela se virou e sentiu o mundo inclinar. Evelyn Townsend estava parada junto ao veículo principal, mas foi o homem ao lado dela que roubou o ar dos pulmões de Mercy. Ela não precisava de apresentações. A sensação de que já se conheciam antes se apertava dentro dela, uma atração tão forte que enfraqueceu seus joelhos.
— Avó? — Sussurrou ela, com a voz embargada.
Antes que o momento pudesse assentar, outro conjunto de carros de luxo entrou na propriedade, os homens Wyndham retornando para casa. Aurelian foi o primeiro a descer, seus olhos aguçados analisando a cena com um único olhar predatório. Ele se moveu instintivamente, fechando a distância entre eles e envolvendo os ombros de Mercy com um braço protetor. Ele pressionou um beijo firme e reconfortante em sua têmpora.
— Você está bem? — Perguntou ele, em um tom baixo e íntimo.
Mercy tentou encontrar as palavras, mas elas estavam presas no fundo da garganta. Ela só conseguiu soltar um sussurro frágil:
— Meu pai...
— Porque a minha resposta nunca mudará.
A sala mergulhou em um silêncio sufocante. Até Aurelian olhou para cima, surpreso com o desafio feroz e repentino dela.
Victor levantou-se lentamente de seu assento. Ele não parecia um homem ali para negociar; parecia um homem que finalmente encontrara sua alma.
— Peço desculpas pela falta de uma apresentação adequada. — Disse ele, com a voz profunda e vibrando de emoção. Ele caminhou em direção a ela, parando a poucos passos de distância. — Meu nome é Victor Townsend. E eu sou seu pai.
A sala prendeu a respiração. Após um sinal sutil de Isla, Aurelian soltou relutantemente a mão de Mercy, dando-lhe espaço para enfrentar o homem sozinha.
— Eu perdi você uma vez. — Disse Victor, a voz caindo para um tom vulnerável.
— Passei anos no escuro, acreditando no pior. Agora que a encontrei, não tenho intenção de perdê-la novamente. — Ele a olhou nos olhos, sua expressão suavizando-se em algo puramente paternal.
— Ninguém vai impedir este casamento, você tem o meu apoio inteiramente, cem por cento.
A revelação ecoou pela sala, seguida por suspiros contidos. Aquilo não era uma aquisição hostil; era uma rendição. Mercy olhou para ele, depois para Evelyn, vendo o calor genuíno em suas expressões. Pela primeira vez em sua vida, as peças fragmentadas de sua identidade pareceram se encaixar. O medo evaporou, substituído por uma onda de esperança. Aquilo não era apenas um encontro; era um recomeço.

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