— Eu sei como você se sente, Isla. — Começou Alfred lentamente, com a voz soando exausta.
— Mas estou lhe contando essas coisas porque você é a jovem mais extraordinária que já conheci.
Os olhos de Isla se arregalaram e sua respiração ficou presa no meio do caminho. Ela ainda lutava para digerir a revelação anterior de que Gabriel era o único neto legítimo, e agora isso?
Sua cabeça girava. Seu coração martelava contra as costelas.
De repente, tudo começou a fazer sentido. O afeto sem fim de Alfred por Gabriel, a atenção especial, a maneira como ele sempre ficava ao lado do neto contra os outros. Não era apenas favoritismo, eram laços. Laços sanguíneos verdadeiros.
Mas como? Como isso seria possível quando, por décadas, todos acreditaram que Wyatt e Landon eram filhos de John?
Ela queria perguntar, pressioná-lo imediatamente, mas algo no tom de Alfred dizia para esperar. Ela entrelaçou as mãos no colo e engoliu em seco.
— Por favor, continue. — Sussurrou.
Alfred assentiu, com o olhar pesado.
— Wyatt e Landon não são meus netos de sangue. — Disse ele categoricamente.
— John tem apenas um filho, aquele que teve com seu primeiro amor. Mas, quando Anna descobriu, ela sequestrou a mulher e a trancou em um hospital psiquiátrico.
A boca de Isla se abriu. Por um segundo, ela esqueceu como respirar.
O velho continuou, com a voz cansada e baixa:
— Eu não sabia disso até recentemente. E quando soube, isso me destruiu, Isla. Completamente. Anna… — Sua voz falhou por um breve momento antes de endurecer novamente.
— Anna é uma mulher perversa. A única razão pela qual não a entreguei às autoridades é porque o falecido tio dela — meu velho amigo — a confiou aos meus cuidados antes de morrer.
Isla permaneceu sentada, atordoada, com os olhos alternando entre o rosto dele e o chão. Ela nem sabia o que dizer. Seus pensamentos estavam emaranhados em descrença.
— Como? — Ela finalmente sussurrou.
— Como ela conseguiu convencer vocês todos esses anos? Como ela fez isso? Nada disso faz sentido.
Alfred recostou-se na cadeira. O peso dos anos parecia repousar sobre seus ombros enquanto ele exalava o ar. Sua mão esfregou a lateral do rosto lentamente, como se decidisse por onde começar.
— Deixe-me contar do início. — Disse ele.
— Quando Anna estava grávida de Wyatt, ela viajou para o país de sua mãe. Ficou lá até dar à luz e depois o trouxe para casa. Esse foi o padrão dela para as três gestações. Ela sempre trazia as crianças, mas ninguém nunca suspeitou de nada.
Ele fez uma pausa, os olhos distantes com a memória.
— Eu criei crianças cujas verdadeiras identidades eu nem conhecia, Isla. Todos esses anos, acreditei que fossem do meu sangue. Mas eram órfãos, cada um entregue a Anna em um orfanato na cidade da mãe dela.
Isla piscou várias vezes, lutando para compreender.
— Quem lhe contou tudo isso? Como o senhor descobriu? — Perguntou ela, com urgência no tom.
— Anna tem duas irmãs. — Disse Alfred. — Rachel e Johanna. Johanna é tão cruel quanto Anna, mas Rachel… Rachel é diferente. Ela tem consciência. Foi ela quem revelou tudo para mim, com direito a provas.
Ele pausou novamente, seus dedos enrugados tamborilando suavemente na mesa.
— Eu não quis acreditar nela no começo. Achei que talvez fosse inveja, sabe, do tipo que corre entre irmãs. Mas cavei mais fundo. Investiguei. Eu precisava ter certeza.
O rosto de Isla estava pálido agora, suas mãos apertando-se uma contra a outra. Ela não disse nada. Não conseguia.
— Eu fiz testes de dna em Wyatt e Landon e descobri a verdade. Eles não eram filhos de John. Também obtive um laudo médico confirmando que Anna… não tem útero. Nunca houve chance dela engravidar.
Isla soltou um suspiro trêmulo. Seu coração doía por Gabriel. Pelo que ele ainda não sabia.
— Tudo bem. — Disse ela lentamente, tentando organizar os pensamentos.
— Eu entendo sobre Wyatt e Landon. Mas e quanto ao Gabriel? O senhor disse que só descobriu sobre ele recentemente. Minha pergunta é… quando ele nasceu, o senhor sabia, naquela época, que ele era seu neto de verdade?
Alfred balançou a cabeça.
— Não. — Admitiu.


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