A sala de jantar estava silenciosa, exceto pelo suave tilintar dos talheres contra a porcelana. O lustre dourado acima deles projetava uma luz quente que brilhava na mesa de vidro.
Gabriel e Isla comiam em silêncio, ambos perdidos em pensamentos. A cada minuto, seus olhos se encontravam, era breve, mas dizia tudo o que as palavras não conseguiam. Havia algo não dito entre eles. Muita coisa, na verdade.
Para Gabriel, seus pensamentos eram simples, mas pesados. Ele queria que Isla se sentisse em casa ali, naquele novo recomeço. Mas ele conseguia sentir o desconforto dela a cada segundo. Não era infelicidade, mas a inquietação de uma mulher que não estava acostumada a ser servida.
Isla sempre fora independente, do tipo que preferia fazer as coisas sozinha. No entanto, agora naquela mansão grandiosa cheia de funcionários prontos para atender a todas as suas necessidades, ela estava aprendendo a aceitar ajuda, mesmo que isso não lhe agradasse facilmente.
Para Isla, seu coração estava sobrecarregado por um tipo diferente de peso.
Culpa.
Ela pensava na confissão de Alfred, na verdadeira mãe de Gabriel e no segredo que era forçada a carregar. Como poderia permanecer em silêncio quando ele fizera de tudo para reconstruir o que quase perderam? Sua gentileza, seu cuidado, seu amor... cada gesto fazia sua culpa queimar mais profundamente.
Ela pousou o garfo e respirou fundo silenciosamente.
— Quando você pretende contar à sua família sobre nós? — Perguntou ela suavemente.
Gabriel paralisou. A faca de prata em sua mão estancou no ar antes que ele a pousasse com cuidado. Seu olhar subiu para o dela, calmo, ilegível e, ainda assim, intenso.
Ele suspirou baixinho e recostou-se na cadeira. Isla percebeu que ele estava procurando as palavras certas.
Ele inclinou a cabeça levemente.
— De qual parte de "nós" você está falando, amor? — Perguntou ele, fingindo não entender.
Isla franziu a testa.
— Não faça isso, Gabriel. — Disse ela gentilmente. Ela largou os talheres e cruzou os braços, mantendo os olhos fixos nele.
— Você sabe exatamente o que eu quero dizer.
Ele a encarou, o maxilar cerrar-se um pouco. Aquele pequeno gesto que ela já conhecia: ele estava se reprimindo.
— Eu sei que você está fazendo tudo o que pode para me fazer feliz. — Continuou ela, com o tom calmo e firme.
— Mas a felicidade não se resume a esta casa ou ao conforto. Trata-se também de família, de tê-los compartilhando isso. Mesmo que nem sempre mereçam.
Gabriel recostou-se ainda mais, cruzando os braços sobre o peito. Sua voz soou baixa. Era constante, quase exausta.
— A única coisa que importa para mim agora é você, Isla. Sua segurança. Sua paz. Pela primeira vez na vida, quero ser egoísta.


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