Ela desligou e ligou para o número de Arthur várias vezes, sem sucesso, até que parou de chamar de vez.
Quando largou o trabalho, Beatriz pegou Val e as duas não foram para casa. Elas dirigiram até o imóvel matrimonial que outrora representou a promessa da vida dela.
A mansão inteira estava acesa, e um clima aconchegante fluía das janelas francesas. Estava bem na cara que ainda havia gente morando lá e sem vontade nenhuma de sair.
Ela levantou a mão e bateu de leve na porta.
A porta abriu e Helena apareceu. Ao ver Beatriz do lado de fora, a mulher congelou, mas abriu um leve sorriso de canto, com os olhos esbanjando superioridade.
— O que você veio fazer aqui?
As palavras revelavam um quê de desdém, transparecendo em provocação.
As coisas já tinham chegado no ponto que chegaram. Só piorava as coisas ela aparecer lá.
No fundo, a casa se tornara a sua próxima parada, e quando tudo estivesse no seu devido lugar, ela iria morar lá oficialmente.
Beatriz segurou a cara, não demonstrou reações e começou: — Vim procurar o Arthur.
— Que horas ele volta?
Helena estava de braços cruzados, cheia de si como se fosse a dona do pedaço, e despistou: — Não estou ciente da agenda dele. Se você precisa falar, volte aqui amanhã.
Quando terminou a frase, um som de criança veio da casa. Hugo segurava um aviãozinho e saiu, tranquilo.
Ao ver Beatriz lá na porta, a cara do menino fechou num instante.
Mais cedo naquele mesmo dia, ele foi obrigado a confessar os erros e pedir desculpas em público. Sentia-se tão envergonhado diante dos professores e alunos que estava fervendo por dentro.
Ao dar de cara com Beatriz, logo deduziu que ela tinha vindo tirar uma casquinha.
— Cai fora daqui!
Hugo se adiantou e empurrou Beatriz, dizendo tudo num tom hostil: — Essa casa é nossa, você não é bem-vinda!
Não foi com muita força, mas ela não teve tempo de reagir.
Beatriz não se preparou e deu dois passos para trás, estendeu o braço para se segurar na coluna atrás dela e conseguiu ficar em pé de novo.
Encarando o ambiente e lembrando das decorações que fez com as mãos de tempos que não voltam mais, a saudade bateu na porta.
Ela viu aquela casa como o resto da sua vida, doou sangue para tudo aquilo, e o que resultou foi o pior dos ferimentos e um lugar de dores na alma.
O sorriso brotou bem de canto, e o brilho dos olhos sumiu. Para ela, aquilo tudo não se passava de uma loucura irônica.
Os papéis já estavam nas suas mãos. E Arthur ainda deixou Helena e Hugo dominando o pedaço, claramente querendo constranger e passar por cima dela de propósito.
Ele entrou no meio, fechado para se defender quando ela fizesse mais um avanço.
Beatriz encarou o garoto na sua frente, sem saber o que pensar sobre tamanho ódio de criança.
Anos atrás ela cuidou bem dele e o tratou de boa vontade. Deu a vida na sua educação e o criou, e não esperava que todo esse esforço ia ser arruinado pela pessoa que acabou de retornar para ele com um par de palavras.
A indiferença no lugar do carinho e os problemas no lugar da entrega, é para rir.
Tirando a visão dele, focou novamente na Helena. Com cada palavra bem separada: — O Arthur não te deixou a par de tudo?
— O imóvel e seus documentos, tudo, está sob o meu nome. O início, e o fim de tudo.
— O quê?
Helena paralisou e não aceitou a resposta. Até achou que ouviu mal: — Sem chance, você tá pregando uma peça.
Beatriz encarou os papéis que pararam no chão, não abalou o tom da voz: — Abaixe e leia com os próprios olhos, o dono da casa, as papeladas, os detalhes, tudinho.
O coração de Helena sumiu. Do nada mirou na folha, deitou-se pra frente e começou a passar nas páginas.
As mãos dela se prenderam. Quando percebeu a informação lá e viu os donos do imóvel, a pele da moça começou a perder as cores.

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