Ela não esperava que ele fosse.
Antes, nos aniversários do avô, ele usava a desculpa de ter muito trabalho para não ir, e logo em seguida esbarravam nele acompanhando Helena em exposições.
Agora, ela já não tinha mais esperanças. Se ele ia ou não, não fazia diferença para ela.
Mas a senhora ficou séria: — Como não? Eu avisei direto, hoje ele tem que vir.
— Num dia tão importante, se ele tiver a coragem de não vir, vai ver o que eu vou falar para ele.
Beatriz não conseguiu contrariar a senhora, e também não queria arrumar confusão no dia do velório. Só lhe restou caminhar até o canto do pátio e ligar para Arthur.
O toque soou por muito tempo até ser atendido devagar.
— O que foi?
A voz dele era fria e distante. Não tinha a menor preocupação, como se fosse um dia qualquer.
A garganta de Beatriz apertou, e as palavras entalaram no peito, causando uma dor surda.
A avó já tinha repetido mil vezes, e ele não ligava nem um pouco.
Assim que ela foi falar, uma voz dengosa e conhecida soou de repente no telefone —
— Arthur, acha esse colar bonito? Eu escolhi por tanto tempo.
Era Helena.
Ela também não tinha ido naquele dia. Afinal, a família Souza a criou até crescer.
Beatriz achou aquilo um verdadeiro absurdo.
Dava para ouvir ao fundo uma música de shopping, tranquila e calma. Não tinha nada a ver com o clima pesado e solene dali.
O que ele chamava de trabalho, no fim das contas, era ir ao shopping escolher joias com Helena.
Beatriz puxou a respiração fundo e, sem dizer nem mais uma palavra, desligou na cara dele.
Ela caminhou de volta para perto das pessoas com o rosto tranquilo. Mas só ela sabia que as pontas dos dedos estavam geladas.
As pessoas continuavam ocupadas, mas esperavam por Arthur sem dizer nada.
Passou uma hora, e a porta continuava sem movimento.
O rosto da senhora foi fechando devagar.
O tio não aguentou mais, e falou com a voz fria: — É muito orgulho mesmo. A família toda esperando por ele.
Beatriz abriu a boca sem se alterar, com a voz tão baixa que mal dava para ouvir: — É normal ele não vir.
No coração dele, nunca houve nada que fosse maior do que o charme da Helena.
A senhora olhou para ela: — O que ele falou no telefone agora?
Beatriz apertou o lábio de baixo: — Ele está trabalhando.
Agora, ele só tinha olhos para Helena.
Quando ela era maltratada, ele fingia que não via. Quando ela estava triste, ele voltava e jogava a culpa nela. Agora ele tinha cara de pau de pagar de família.
Tiago fechou a cara: — Que jeito de falar comigo é esse? Sou seu irmão.
Ele olhou para todo lado, viu que da família Valente só a avó estava, e deu um riso de deboche, abaixando a voz para acertar cada palavra no coração de Beatriz de propósito: — Te falo para ser esperta e separar do Arthur o quanto antes.
— Ele só tem a Helena no peito. Ficar agarrada assim adianta de quê? Nem no aniversário do avô ele vem, não sente vergonha de segurar esse casamento de mentira?
— Anos lutando tanto, e as pessoas te olham de verdade? Se a avó pudesse ver lá do chão, sentiria vergonha de você.
Cada palavra cravava no peito que nem agulha.
Beatriz sentiu um frio no corpo e o peito subindo e descendo com força. A tontura da quimioterapia bateu de vez, e a visão ficou escura várias vezes.
Assim que ela foi abrir a boca, uma voz de homem muito conhecida veio da porta, com um tom de desculpa sem se importar muito.
— Desculpe, me prendi com as coisas no caminho, cheguei tarde.
Beatriz olhou para trás com força.
Arthur estava na porta, num terno liso e corpo reto.
Atrás dele, estava a Helena com o rosto cheio de sorrisos.

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