Ao perceber a situação, Helena se adiantou e abraçou levemente o braço da avó, com um sorriso dócil e compreensivo.
— Vovó, não fique ansiosa. Essas coisas dependem do destino e não dá para forçar. A minha irmã e o Arthur talvez queiram curtir mais alguns anos a dois.
As palavras dela soavam como se tentasse tirar a irmã do constrangimento, mas, no fundo, insinuavam que mesmo se Beatriz e Arthur tivessem um ótimo relacionamento, ainda não conseguiriam gerar filhos.
Arthur, de pé ao lado, com um semblante calmo, declarou friamente, num tom desprovido de sentimentos: — Não está nos planos no momento.
A frase simples e curta soou como a constatação do fato mais trivial.
Beatriz fechou lentamente a mão junto ao corpo, sentindo um escárnio silencioso por dentro.
Claro que não estava nos planos.
Como poderia haver planos com ela, quando ele dedicou toda a sua gentileza, paciência e expectativa a outra pessoa?
Além disso, o corpo dela já havia falhado e as sessões de quimioterapia a destruíam repetidamente. Esqueça filhos, até mesmo viver de forma decente havia se tornado algo difícil.
Nessa vida, nunca mais teriam filhos.
Nunca.
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Aquele passeio de primavera reuniu praticamente a família Valente inteira. Até mesmo Hugo, que não costumava sair muito, acompanhou o grupo.
Quando os carros chegaram ao local de acampamento nas montanhas, as paisagens da primavera preenchiam tudo ao redor, com as plantas viçosas e um vento de temperatura amena.
Porém, Beatriz se sentia deslocada em meio a todos eles, carregando uma solidão indescritível que permeava o seu ser.
As estruturas moleculares e cálculos, ali expostos, se tornaram o único alento que lhe restava. Somente imersa no mundo profissional ela conseguiria se distrair momentaneamente de tantos estorvos e das dores que sentia.
Mal ela se acomodou, a voz manhosa de Helena soou próximo dali.
Ela se encostou perto de Arthur, com a testa um pouco enrugada, revelando o pulso delicado, enquanto dizia com voz meiga, simulando dor:
— Arthur, esbarrei sem querer nas minhas coisas quando estava arrumando, dói muito, olha como tá vermelho.
Arthur interrompeu as suas tarefas e examinou o pulso dela com atenção, onde havia apenas uma leve mancha, franzindo o cenho: — Que distração sua, da próxima vez não lide com coisas pesadas.
Tamanha atenção aos detalhes era algo que Beatriz nunca recebeu.
Beatriz continuou sentada em seu lugar e assistiu a cena com frieza, pensando em tamanha ironia, até retornar o seu foco para o celular, ignorando por completo aquilo tudo.

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