— Não é incômodo. Afinal, é a minha esposa.
A voz de Lucas soou sem emoção. O fechar da porta não foi amável, batendo com um estrondo alto.
Ao colocar Julia no carro, ele deitou a cabeça no ombro dela.
O rosto de Lucas estava meio quente. A pele exposta à respiração dela fez cócegas.
— Julia.
Ele murmurou em seu ouvido, num tom um pouco ríspido, com toda a pinta de intimidade amorosa.
Julia pensou: a culpa era da chuva.
Estava bagunçando seu coração inteiro.
Ela calou, esperando a continuação de Lucas.
— Fui ver umas casas para a Clarice hoje. Se tudo der certo, ela muda na sexta.
Ele levantou as pálpebras, e já não tinha a típica apatia madura e nobre.
Era um grude que, no passado, só aparecia na frente dela. E Lucas a fitava assim, reto, com o olhar carregado de negro.
Como um cãozinho à espera de elogios.
Julia logo lembrou das fotos que Clarice tinha mandado.
Ela puxou a mão: — Você está bêbado.
Depois disso, Julia olhou pela janela. As luzes das ruas ficavam borradas sob a chuva, e no carro reinava um silêncio de dar para ouvir uma agulha cair.
O carro estacionou na frente do prédio. Lucas a observou entrar segura em casa, então se virou e partiu.
Aquela frase, muito mais rápida e violenta que a chuva, apagou a coragem e a expectativa que ele conseguira reunir.
Debaixo do beiral do telhado, ele puxou o isqueiro. "Clac". Ele observou a chama calado, até que o celular tocou.
— Lucas!! Eu estou na porra do Restaurante Jade há duas horas! Atchim!
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