Julia fechou o celular e, tranquila, pegou o elevador para o térreo.
Uma forte chuva começou sem aviso lá fora. As gotas estalavam no telhado e pareciam cair também no coração de Julia, apagando por completo a agitação que acabara de florescer.
Ela pensou: Lucas não ia mudar.
Assim como a época de chuvas era sempre úmida, a pessoa sobre quem Lucas inclinaria o guarda-chuva não era ela.
Julia saiu apressada e não levou guarda-chuva.
Vestia uma blusa tomara-que-caia rosa-chá, exibindo as clavículas bem marcadas. A pele branca e exposta ficou manchada de um tom róseo devido ao vento frio e úmido que soprava pelas portas de vidro.
Assim que se preparou para correr na chuva, sentiu um toque estranho no corpo e o cheiro nítido de perfume amadeirado invadiu o nariz.
Julia olhou para trás e encontrou olhos familiares e, ao mesmo tempo, desconhecidos.
Os olhos estreitos de Hugo cerraram-se um pouco por trás da armação dourada dos óculos. Embora fizesse cinco anos que não se viam, o tempo parecia não ter deixado marcas nele; só acrescentara um certo charme maduro.
Ele bateu na roupa dela para tirar as gotas de chuva e perguntou num tom ameno: — Não está com frio?
E então abotoou o paletó em Julia.
O movimento foi ágil e natural, como se repetido milhares de vezes.
Julia pareceu voltar à época em que fugira da Família Cavalcante. Também era um período chuvoso e úmido.
Ela fraturou o braço e morria de medo de estranhos. Bastava alguém chegar perto, e ela tremia sem controle — menos com Hugo.
Depois de demitir a terceira babá, Hugo passou a dar comida e abotoar a roupa dela pessoalmente. Mesmo trabalhando num ritmo frenético, ele corria para casa no horário das refeições.
Até a mão dela curar. No entanto, foi Hugo quem ficou doente.
Julia não chorara ao ser trancada, não chorara ao ser agredida.
Mas, ao ver Hugo desmaiado, ela chorou pela primeira vez.
Ela não sabia que, naquele instante, do outro lado da porta de vidro.
O guarda-chuva de Lucas caiu no chão.
Ele ficou ali, na chuva. As gotas molharam a ponta do cigarro que acabara de acender.
Mas ele pareceu não sentir. Deixou a tempestade cair à vontade. As gotas escorreram das têmporas pelas bochechas, deixando a camisa encharcada.


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