A fila do sorvete na cabine do Mac Donald’s estava longa. Apesar de tudo, eu não sairia dali sem um sorvete. Era caso de vida ou morte.
Respirei fundo, sentindo dor nas pernas enquanto aguardava. E por que a vontade insana de comer aquele sorvete em específico? Desejo?
- Eu... Vou ao banheiro. – Avisei Jai, saindo da fila e indo em direção ao local que eu precisava.
Sim, senti tudo rodar com a possibilidade que me vinha à mente. Eu já tinha 20 anos menos de vida... E uma gravidez poderia reduzir meu tempo em... Oito ou nove meses apenas... O suficiente para carregar meu bebê no ventre e botá-lo no mundo, entregando-o nas mãos do pai.
Senti um nó na garganta e acabei indo de encontro a uma pessoa que passava. Sim, eu sequer olhava por onde andava, como se caminhasse de forma automática para um banheiro que eu nem sabia onde ficava.
Levantei a cabeça para desculpar e deparei-me com...
- Ingrid? – Minha voz soou trêmula.
Ela sorriu, o que raramente fazia. Mas eu não era ingênua para pensar que era um sorriso sincero. Era puro sarcasmo:
- Senhora Clifford! Quanto tempo!
Eu poderia dizer o quanto ela era vagabunda e que sabia de seu golpe. No entanto tentei passar pelo lado, sendo impedida por ela, que parou na minha frente.
- Por que a pressa, senhora Clifford? Viu as notícias do dia?
Eu ri:
- Por que não imaginei que fosse obra sua? Acha mesmo que eu ou Gabe acreditamos que este filho seja dele?
Ela passou a mão na barriga que não tinha sinal algum de gravidez. Sem me dar em conta, alisei também a minha, percebendo que em nada eu aparentava uma mulher grávida se não portasse um exame em mãos.
- O bebê é dele. E o exame de DNA comprovará isto.
Ingrid pareceu tão certa do que dizia que um frio percorreu minha espinha. Ainda assim mantive a segurança, embora por dentro tudo em mim tremia:
- Como você consegue ser tão dissimulada? Dopou o meu marido!
- Uma mulher faz tudo por amor, Olívia. E você sabe muito bem disto, já que se submeteu a todas as humilhações pelas quais Gabe a fez passar.
- Ele nunca sequer cogitou tocá-la, Ingrid!
- Pelo menos nunca me machucou, como fez com você.
- Gabe jamais assumirá esta criança.
- Não mudará o fato de que é filho dele. Por dez anos ele chorou a morte de um bebê no ventre de Mônica. Agora estou lhe dando a chance de ser pai... De verdade.
- Não é dele... Este filho não é do Gabe.
- Está com medo, Olívia. Sabe que o meu bebê vai virar a vida de Gabe de cabeça para baixo... E no fim, ele assumirá a criança. E se apaixonará por ela.
- Mas nunca pela mãe. – Sorri.
- Pelo menos eu lhe dei um filho... Assim como Mônica. E você?
Senti o chão mexer-se sob meus pés, como se tudo tivesse virado gelatina. Me apoiei na parede e disse:
- Eu... Estou tonta!
Caralho, eu precisava de ajuda, nem que fosse dela.
Encarei Ingrid, que saiu dali rapidamente, fazendo questão de me deixar totalmente indefesa me segurando a uma parede. Peguei meu celular e liguei para Jai, que em minutos estava me amparando.
- Sua cara está péssima! Será que sua hipoglicemia baixou? – Cogitou.

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