Fiz o percurso de volta para casa como se tivesse voltado de um funeral, tamanha dor que sentia por ter feito a escolha de deixar Olívia livre.
Eu nem sabia identificar as sensações que meu corpo produzia... Dor, medo, ansiedade, cansaço... Tudo junto e misturado. Assim que parei meu carro em frente à mansão Clifford, observei o lugar. Já fazia um tempo que não tinha graça alguma voltar ali. Aliás, a única vez que senti vontade de pisar os pés naquele lugar foi quando Olívia ainda morava. Desde que ela partiu, tudo acabou. E a construção imponente voltou a ser o que sempre foi, um apanhado de tijolos e cimento frio e sem vida.
O amor era uma porra mesmo! E talvez por aquele motivo meus pais nunca deixaram aquele sentimento tomar posse deles. No fim, nos privando de carinho, eles se tornaram fortes e não sofreram. E não sei se o objetivo deles ao final foi que também fôssemos capazes de não sentir nada, blindados contra qualquer tipo de sentimento que pudesse nos ferir. Ainda assim, foram falhos.
Eu nem podia dizer que seguiria em frente, porque não havia aquela possibilidade. Simplesmente tocaria a vida de forma automática, como sempre foi. E tinha certeza de que sentiria até saudade de planejar minha vingança contra Ernest, que era o que me movia nos últimos anos e que dava certa graça à minha vida monótona e sem sentido que eu levava.
Quando abri a porta, deparei-me com Jorel sentado no sofá, a perna engessada sobre a mesa de centro, bebendo uísque.
- Desde quando medicamentos e álcool são uma boa combinação? – Questionei, suspirando e jogando a chave no sofá, enquanto deixava meu corpo cair sobre uma das poltronas – Mas... Se você quer se matar, quem sou eu para impedir?
- Daria graças a Deus, não é mesmo? – riu, com deboche, sorvendo o restante do líquido âmbar que havia no copo – Pelo menos não teria mais que pagar uma mesada para mim. Sobraria dinheiro para que pudesse guardar e dividir com... Ah, esqueci, você não em herdeiros! – Gargalhou.
- Nem terei – massageei minhas têmporas – E saiba que o valor da mesada que lhe pago é ínfimo para me fazer falta. Ou seja... Sua morte tanta faz para minha conta bancária.
- Então deixe eu me matar, porra! Não tenho nada melhor a fazer. Estou trancado nesta merda de casa.
- Quanto tempo falta para que tirem o seu gesso?
- Tirarão no final do mês. E enfim estarei livre.
Servi-me de um pouco de uísque e Jorel levantou o copo vazio, solicitando mais. Não enchi o copo dele, me fazendo de desentendido. Sentei-me e perguntei:
- E o que fará quando estiver livre?
- Voltarei para a minha vida bagaceira. – Riu, com ironia.
- Nunca pensou em deixar esta porra de jogos, bebidas e mulheres?
- Por que eu faria isto?
- Para tentar ser alguém normal?
- Normal como você?
- Estou longe de ser normal. Sou um filho da puta pior que você.
- Por que acha isto, Gabe?
- Porque você não prejudica pessoas ao seu redor... Eu sim.
- Hum... Você bateu a cabeça, isto?
Eu ri, com desdém, bebendo todo o líquido do copo de uma vez, sentindo o amargor descer pela minha garganta e torcendo para que em breve não lembrasse de mais nada do que ocorreu naquela noite, a fim de conseguir deitar na cama e dormir.
- Só quero que você cresça, Jorel. Está na hora.
- Eu sou bem crescidinho.
- Sim... Disto não tenho dúvidas. Agora só precisa se tornar um homem de verdade.
- Como você? – gargalhou, o hálito alcoólico vindo até mim.
- Já fui um homem... Hoje sou o que resta dele. – Confessei.
- Quer se redimir comigo depois de todos estes anos?
- Não, não quero me redimir. Nunca fiz nada errado para você.
- Roubou a minha parte da herança.
- Não roubei... Você a vendeu.

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