Desta vez Gabe era inocente, embora tivesse sido o primeiro a mencionar a culpa do meu pai quanto ao meu passado, que até então eu me recusava a aceitar.
- Não... Só estou aqui... “Divagando”. – Usei a mesma palavra que ele.
- Coração, você é tudo para mim! – ele me abraçou de novo.
- No que está trabalhando?
- Eu... Estou montando um projeto para uma concessionária de rodovias que está em crescimento. – Pareceu empolgado.
Será que ele realmente estava trabalhando e se envolveu com alguma mulher somente depois que saiu do trabalho?
Na manhã seguinte, Jai avisou que o exame de irmandade estava agendado para daqui há dez dias.
Ao final do turno, eu estava ajeitando minhas coisas para ir embora quando ouvi uma batida na porta, que se abriu. E lá estava ele: Gabe Clifford, em seu terno preto impecável, cabelos alinhados, os olhos azuis mais lindos do mundo e aquele sorriso cretino que fazia meu coração errar uma batida a cada três.
- Não atendo adultos. – Falei enquanto fechava minha bolsa.
- Estou muito mal... E sou parente de uma aluna. Me inteirei do regimento da escola e descobri que a enfermaria pode ser solicitada por qualquer pessoa que estiver ferida ou precisar de atendimento emergencial.
- O senhor não me parece ferido... Tampouco precisando de um atendimento médico emergencial. Sem contar o fato de que não sou médica.
Gabe foi até a maca e deitou-se:
- Estou morrendo.
- Não posso curar o seu coração. – Deixei claro.
- Agora dói aqui... Muito. – Tocou a área interna da coxa, próxima da virilha.
Eu ri:
- Não vou cair na sua lábia, Gabe Clifford. Você já foi melhor!
- Gostava do antigo Gabe, porra? Ele era um cretino.
- Não vou tocá-lo. Gabe.
- Só um pouquinho, senhora Clifford. Já faz três dias que sinto algo estranho aqui.
- Não sou médica, Gabe!
- Você é exatamente o que preciso para curar o que tenho aqui. – Tocou a região genital.
- Você é mesmo um filho da puta. – Fui na direção dele e parei em sua frente.
Gabe pegou minha mão e me encarou:
- Não pode curar o coração de nenhum outro homem... Só o meu. Se não quer que seu diretor se machuque, fique longe dele.
- Cretino! – Tentei me afastar e Gabe me puxou com força, fazendo-me praticamente cair sobre ele.
Ficamos tão próximos que nossas respirações se encontraram:
- Sinto sua falta... – Ele confessou, num fio de voz, e eu conseguia sentir seu coração batendo sob meu braço que estava em cima do seu peito.
Tentei retomar o ritmo da minha respiração e perguntei:
- Já tomou sua decisão quanto a perdoar meu pai?
- Não.
- Não irá perdoar?
- Não tomei a decisão.
- Então suma da minha frente.
- Quero convidá-la para um encontro.
- Eu não quero ir a um encontro com você.
- Pode escolher qualquer lugar.
- Siga sua vida, Gabe. Não ficarei com você.
- Ainda é minha esposa.
- No papel.
- E continuará sendo, porque jamais lhe darei o divórcio.
- O que quer de mim, porra?
- Você! Eu quero você... Só para mim, como deveria ter sido desde sempre.
- Sente que perdeu seu brinquedinho favorito?
- Você é mais do que isto.
- Percebeu tarde demais.
- Ao menos percebi. Me desculpe se não sei ler sinais... E se meu coração é totalmente estranho e sabe pouco sobre sentimentos.

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