Patrick viu o sorriso de alegria que ela não conseguiu esconder ao aceitar o quadro, seu rostinho iluminado de felicidade. Ele assentiu com força e pegou a colher, comendo com grandes bocados.
Depois do jantar, o motorista levou Patrick embora.
Sílvio fez questão de dirigir pessoalmente para levar Carla até sua pequena casa.
No carro, Carla o lembrou:
"Em experimentos de baixa taxa de sucesso como esse, normalmente os voluntários são buscados entre os condenados à morte, com autorização das autoridades superiores."
"Eles costumam ganhar algum benefício ao participar, como auxílio financeiro para a família ou, se o experimento for bem-sucedido, a comutação da pena de morte. Por isso, não é tão difícil encontrar candidatos."
"Agora, com você insistindo em ser voluntário e se recusando a desistir, o grupo de pesquisa não pode solicitar esses condenados. Espero que pense bem. Até o início do experimento, ainda pode se arrepender."
"Arrepender?"
Sílvio apertou o volante, o olhar se aprofundou. Ele próprio era um condenado à morte; no coração dela, já havia recebido sua sentença.
A diferença era que outros voluntários tinham chance de redenção. Ele, não.
Quanto a se arrepender?
Ele já fizera muitas coisas das quais se arrependera profundamente.
Quinze anos atrás, arrependeu-se de ter deixado Carla voltar ao seu país. Deveria tê-la mantido ao seu lado, protegido, sem dar a ninguém a chance de machucá-la...
Arrependeu-se de confiar nos registros do incêndio no orfanato, de não ter investigado a fundo, de não ter ido procurá-la.
Arrependeu-se de, cinco anos atrás, não tê-la reconhecido à primeira vista quando ela apareceu diante dele.
Arrependeu-se de, três anos atrás, ter visto o nome dela pendurado na árvore dos desejos da Igreja Paz, sem perguntar uma vez sequer quem era o homem que ela amara por doze anos.
Arrependeu-se de, dois anos atrás, tê-la deixado partir novamente.
Arrependeu-se de, quando o chip dela ainda não havia se integrado completamente, não ter admitido seus sentimentos, de não ter aproveitado a última chance, de tê-la ferido uma e outra vez, até empurrá-la para o desespero.
Agora, era tarde demais para se arrepender.
A voz de Sílvio saiu rouca e baixa:
"Você diz que nunca mais quer ter qualquer ligação comigo nesta vida, mas eu não consigo te deixar ir."
"Agora tenho uma chance de usar meu coração para pavimentar o caminho da sua vitória. Quando você subir ao palco para receber o prêmio, poderá mencionar o nome deste ex-marido, e assim deixarei ao menos uma lembrança boa na sua memória, não só dor. Isso já me satisfaz."

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