O carro seguiu pela estrada de volta à alcateia em um silêncio pesado.
Não era um silêncio confortável, era denso, cheio de coisas não ditas, de pensamentos que batiam nas paredes do peito como animais presos.
Dante dirigia com as mãos firmes demais no volante, o maxilar travado, os olhos fixos à frente como se qualquer desvio pudesse abrir espaço para algo que ele não estava pronto para enfrentar. O cheiro de raiva ainda estava nele, não aquela fúria explosiva que virava garras e dentes, mas algo mais frio, mais perigoso.
Kian, no banco de trás, não parava quieto.
— Papi… — chamou pela terceira vez em menos de dois minutos.
— Hm? — Dante respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Quem era aquele moço malvado?
Liana sentiu o corpo enrijecer.
Ela estava com Kian no colo, o menino apoiado contra seu peito, as perninhas dobradas sobre o banco. Passava os dedos pelos cabelos dele num gesto automático, tentando manter uma calma que não combinava de verdade com como ela se sentia por dentro.
— Ele falou coisa feia da titia — Kian continuou, o cenho franzido, fazendo uma carinha de bravo. — Por que ele falou assim? Ele não gosta de você, titia? Ele é feio, papo deva ter batido nele.
Liana respirou fundo antes de responder.
— Algumas pessoas… — começou devagar — não sabem lidar com os próprios erros, meu bem.
Kian fez uma careta.
— Erros?
— É — ela explicou, com um sorriso pequeno. — Quando a gente faz algo errado e não quer assumir, acaba machucando os outros.
O menino pensou por alguns segundos.
— Então ele é bobo?
Ela quase sorriu.
— Um pouco — admitiu. — Mas não precisa pensar nele, tá? Deixa ele pra lá.
— Mas ele era mau — Kian insistiu. — E falou alto com a titia.
Dante apertou os dedos no volante.
— Kian — ele disse, a voz firme, mas controlada — chega de perguntas.
O menino se encolheu um pouco, sentindo o peso no tom do pai, e Liana imediatamente o apertou mais perto.
— Ei — murmurou para ele. — Não fica triste.
— O homem bobo gritou com a titia… — Kian disse baixinho, como se aquilo fosse um crime imperdoável. — Kian não gostou.
Liana sentiu algo apertar no peito.
— Eu sei — respondeu. — Mas já passou.
Para distrair o menino, ela apontou pela janela quando passaram por uma sorveteria ainda aberta.
— Olha ali… — disse animada. — Você viu aquele sorvete gigante que a gente comeu?
Os olhos de Kian brilharam.
— O de chocolate com granulado?!
— Esse mesmo.
— E você deixou eu comer dois! — ele sorriu largo.
— Só porque você prometeu não contar pro seu papi — ela sussurrava como se fosse um grande segredo, mesmo sabendo que Dante ouvia tudo.
Só queria distrair o menininho na esperança que ele esquecesse Justin e todo resto, quem sabe se Kian parasse de falar sobre Dante também não tocasse no assunto.
“Espero que ele se distraia e esqueça também”, pensou para si mesma, mas sabia que aquilo não iria acontecer.
Kian riu, o riso infantil quebrando um pouco a tensão dentro do carro, trazendo ela de volta a realidade.
— Eu contei… — confessou, rindo mais ainda.
Dante soltou um resmungo quase imperceptível.
— Traidor — murmurou.
Kian gargalhou e continuou falando sobre o passeio, sobre as lojas, sobre os brinquedos que viu, e Liana deu corda a todos os assuntos, mantendo a mente do menininho ocupada enquanto podia e conseguia.
Aos poucos, o cansaço venceu.
A cabeça do menino tombou contra o ombro dela, a respiração ficou mais lenta, mais profunda. Liana ajeitou o corpo dele com cuidado, segurando-o melhor, sentindo aquele peso pequeno e quente se encaixar nela como se sempre tivesse pertencido ali. Era estranho, afinal, nunca nem pensou sobre filhos, e agora estava ali, se apegando a uma criança que nem era sua e que tinha um pai que achava que era dono dela.
O carro continuou rodando por alguns minutos em silêncio, um silêncio diferente agora, mais pesado.
Dante finalmente falou.
— Quem era ele?
A pergunta veio baixa, sem emoção aparente, mas Liana sabia que aquilo não era curiosidade.
Ela demorou um pouco para responder.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá sequestrada pelo alfa