“Lucas Sinclair”
Minha mãe nos observa com aquele sorriso calculado que conheço desde criança. O mesmo que ela usa quando quer desestabilizar alguém sem precisar dizer uma palavra.
Só que ela esquece um detalhe importante: eu fui um ótimo aluno.
— Estávamos falando sobre o Oliver, mãe — digo, mantendo a voz neutra. — E agora precisamos voltar para a sala.
— Que coincidência — ela murmura, sem tirar os olhos de mim. — A Srta. Collins estava mesmo sendo procurada pelo Oliver. Afinal, ela está aqui para cuidar dele, não para conversar com o chefe nos corredores.
Aperto a mandíbula. A farpa foi sutil, educada… e clara.
Ivy abaixa a cabeça e murmura um “com licença” antes de passar por nós e desaparecer pelo corredor.
Assim que ela some de nossas vistas, encaro minha mãe.
— Não existe hora errada para falar do meu filho, mãe.
— Eu sei — ela responde, ajeitando a pulseira de diamantes. — Mas você também sabe como as pessoas falam, Lucas. E, especialmente hoje, não é o momento de alimentar fofocas.
Claro. Diana Sinclair e sua obsessão doentia por imagem, controle e aparências.
Respiro fundo e me afasto antes que eu diga algo que vá incendiar esse salão inteiro.
Assim que entro na sala principal, Harrison Caldwell me para e começa a me bombardear com perguntas sobre investimentos, como se minha alma não estivesse em outro lugar.
Meus olhos, porém, insistem em ir para o canto do salão, onde Ivy está sentada ao lado de Oliver. Ela força um sorriso enquanto brinca com ele.
E isso me dá vontade de quebrar alguma coisa.
Odeio que ela esteja usando aquele maldito uniforme.
Odeio que a Blair tenha conseguido humilhá-la.
Odeio que minha mãe tenha nos interrompido antes que eu pudesse acalmá-la. Protegê-la.
Mas, acima de tudo, odeio não poder atravessar a sala, puxá-la para fora daqui e mandar todo mundo ir para o inferno.
Ainda não.
Mas logo.
Alguns minutos longos e torturantes depois, o jantar finalmente é anunciado.
Me sento à mesa principal, ao lado de Blair, e finjo prestar atenção enquanto meu pai faz mais um de seus discursos intermináveis sobre carreira, legado e família.
Blair mantém aquele sorriso perfeitamente ensaiado, interpretando com maestria o papel de esposa exemplar.
Eu? Só conto os minutos para ir embora.
Na mesa menor, vejo Ivy sentada ao lado de Oliver e dos filhos de alguns convidados. Ela mal toca na comida. Parece pequena demais. Invisível demais.
Quando nossos olhares se cruzam, ela desvia os olhos como se estivesse fazendo algo errado.
Meu maxilar se aperta. Seguro o garfo com força suficiente para quase entortá-lo.
Após uma eternidade disfarçada de jantar, as pessoas finalmente começam a se levantar. Alguns se despedem, outros ficam conversando em pequenos grupos.
Não espero nem dois segundos.
Levanto da cadeira e caminho direto até o sofá onde Ivy está sentada. Oliver já dormiu, com a cabeça no colo dela e a boca levemente aberta.
— Vamos — murmuro, pegando meu filho com cuidado. — Se eu ficar aqui mais um minuto vendo você desse jeito, não vou responder por mim.
— Eu não teria precisado “colocá-la no lugar” se você não tivesse feito aquela garota confundir as coisas — dispara, seca.
Blair se vira lentamente para mim, cruza os braços e continua.
— O que você acha que as pessoas pensariam se a babá aparecesse no aniversário do seu pai usando um Valentino? — continua, levantando a sobrancelha. — Que você está dormindo com ela. Que decidiu exibir sua amante na frente da sua esposa.
— Amante? — solto uma risada seca. — Vai mesmo bancar a esposa ofendida agora, Blair? Isso chega a ser patético.
— Patético é você fingir que esqueceu o nosso acordo.
Fecho os olhos por um segundo, contando até dez. Até cem. Até mil.
— Da próxima vez que você tentar humilhar a Ivy — digo, baixo, perigoso —, vai haver consequências. E você não vai gostar.
Não espero resposta. Viro as costas e saio.
Vou direto para o quarto de Oliver. Assim que abro a porta, encontro Ivy sentada na beirada da cama, observando meu filho dormir.
Ela ajeitou o cobertor, tirou os sapatos dele… e agora apenas o olha, como se estivesse protegendo o momento.
Ela se sobressalta quando me vê e se levanta rápido, limpando os olhos.
— Desculpa, eu já estava indo — sussurra. — Preciso tirar essa roupa.
— Quando terminar, vá até o meu quarto — digo.
— Seu quarto? — pergunta, se virando para me encarar.
— Sim. Precisamos conversar sobre… Tudo.

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