Mantenho os olhos na tela do computador sem realmente ler nada. Os números do relatório trimestral esperam para ser analisados, mas minha cabeça está em outro lugar.
Está em Ivy.
Já se passaram cinco dias desde aquela noite terrível. Cinco dias desde que tudo quase deu errado.
Assim que Daniel confirmou que ela estava bem, Ivy voltou para a mansão, insistindo que cuidar de Oliver a manteria ocupada o suficiente para não pensar.
Teimosa.
Porque, sinceramente… eu não queria. Queria mantê-la no meu apartamento, longe de tudo e de todos, por mais alguns dias.
Sempre que fecho os olhos, as imagens daquela noite voltam. Aquele homem a arrastando. O sangue nas minhas mãos. Ela desacordada nos meus braços.
Fecho os olhos por um segundo, me recostando na cadeira e respirando fundo.
Ela está bem. Está segura.
Repito isso como um mantra desde sábado.
A porta se abre sem aviso, e Owen entra com uma pasta debaixo do braço.
— Você está parecendo um personagem de The Walking Dead — ele comenta, me avaliando de cima a baixo.
— Bom dia pra você também — murmuro, sem tirar os olhos da tela.
— Estou falando sério, Lucas — diz, franzindo a testa. — Quando foi a última vez que você dormiu de verdade?
Não respondo porque… sinceramente, não sei.
Desde sábado, dormir virou luxo.
— Enfim — ele continua, se jogando na cadeira à minha frente e largando a pasta sobre a mesa —, vim com notícias.
Endireito a postura, fecho o notebook e cruzo os braços, encarando-o.
— Boas, eu espero.
— Eu também queria, mas não são tão boas — responde, abrindo a pasta. — Primeiro: o cara do estacionamento. Um filhinho de papai com uma ficha criminal extensa. A maioria por assédio, tentativa de estupro, invasão de privacidade… o pacote completo de lixo humano.
Meus punhos se fecham automaticamente.
— Ele não vai escapar dessa vez — Owen completa, erguendo a mão como se lesse meus pensamentos. — Nem se o pai dele gastar tudo o que tem e o que não tem. Ele não vai conseguir.
— Assim espero — respondo, seco. — E a droga?
— Não foi ele — diz, sério. — O desgraçado só viu uma oportunidade e tentou se aproveitar. Mas não foi ele quem colocou nada na bebida da Ivy.
Fecho os olhos. Eu já imaginava disso, mas ouvir confirmado só torna tudo pior.
— Claire ou Lily — murmuro, abrindo os olhos novamente.
— Falei com a Claire ontem — ele responde, se recostando na cadeira. — Ela jura que não teve nada a ver com a droga. Disse que foi ao banheiro enquanto a Lily pedia as bebidas e depois só ajudou a levar os copos até a pista.
— E você acredita nela?
— Você tem certeza?
— Tenho — digo, sem hesitar. — Eu deveria ter feito isso há três anos, quando o prazo do acordo acabou. Mas fiquei preso nessa ilusão de que manter o casamento seria melhor para o Oliver. Que ele precisava da imagem de uma família.
Faço uma pausa, respirando fundo.
— Mas essa imagem nunca existiu. Blair mal olha pra ele. Quase não está em casa. E Oliver não é burro — continuo, com a voz mais firme. — Ele sente a ausência dela. Então, sim. Eu quero o divórcio.
Owen me observa em silêncio por alguns segundos antes de finalmente assentir.
— Posso começar a preparar os papéis — diz, sério. — Mas você precisa estar realmente certo disso, Lucas. Mesmo que você sobreviva bem sem os Knight, uma separação vai mexer com sua imagem. A mídia vai cair em cima. Os acionistas vão questionar. Seu pai vai…
— Eu sei — interrompo. — Sei de tudo isso. Mas, pela primeira vez em cinco anos, eu tenho certeza de alguma coisa. E é disso.
Owen sorri daquele jeito que só quem me conhece há tempo demais consegue sorrir.
— Então vamos fazer isso — ele diz, se inclinando para frente. — Mas, sabemos que Blair não vai aceitar numa boa. Se prepara.
— Sei que essa vai ser a pior parte — respondo, cansado. — Mas não me importo mais.
Ele abre a boca para responder, mas para quando a porta se abre de repente.
Desvio o olhar, irritado, e encontro minha mãe entrando com aquela expressão de sempre. Calculista. Controlada. Fria.
Meu maxilar se aperta automaticamente.
Claro. Porque, na minha vida, estresse nunca parece ser demais.

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