O zíper do saco preto ecoa pelo apartamento, alto demais para um espaço que, minutos atrás, estava tomado por gritos e disparos.
Viro o rosto só o suficiente para ver dois homens colocando o corpo de Simon dentro do saco, como se tudo aquilo fosse apenas mais um procedimento. Para eles, provavelmente é.
Para mim, é o fechamento de um ciclo que durou tempo demais.
Desvio o olhar quando levantam o corpo para sair do apartamento e volto para a cozinha.
Blake está sentado na bancada, com a manga da camisa cortada e o ombro sendo finalizado por um dos paramédicos.
A expressão dele não muda enquanto o curativo é fixado, como se dor fosse só mais um detalhe operacional.
— Recomendo acompanhamento hospitalar — diz o paramédico, fechando o kit. — O ferimento não é grave, mas um raio-x confirmaria que não há fragmento ou alguma lesão mais profun…
— Não há — Blake corta, seco, como se estivesse falando de um arranhão. — Entrada limpa, sem saída. Pegou de raspão no ombro. Já tive coisa pior.
— Ainda assim, senhor, é protocolo…
— Já estou bem — interrompe de novo, firme, ajustando levemente o ombro assim que o curativo é finalizado. — Sem tontura, sem perda de força, sem comprometimento de mobilidade. Não preciso perder tempo em um hospital.
Olho para o paramédico, que me encara como quem diz “fiz o que pude” antes de se afastar.
— Você perdeu sangue demais para ser “só de raspão” — retruco, estreitando os olhos. — Eu estava com as mãos cobertas de sangue, Blake.
— Ombro sangra assim mesmo — responde, como se estivesse explicando algo óbvio demais. — Parece pior do que é.
— “Parece”? — repito, incrédula.
— Se tivesse atingido algo importante, eu não estaria sentado aqui discutindo com você — completa, calmo demais. — Nem consciente.
— Blake…
— Que tal você ir tomar um banho? — corta, se levantando. — Te encontro daqui a pouco. Enquanto isso, resolvo algumas coisas.
Abro a boca para responder, com pelo menos três argumentos prontos, todos bons o suficiente para obrigá-lo a ceder e ir ao hospital.
Mas nenhum deles sai quando, no meio do impulso, meu olhar desce para minhas mãos ainda sujas. Para o vermelho seco começando a escurecer nos dedos, grudando na pele.
O sangue dele.
Engulo seco, sentindo toda a força que eu tinha para discutir simplesmente… desaparecer.
— Vai — ele repete, mais baixo agora. — Estou bem, é sério.
Suspiro, resignada, e assinto, já me afastando.
Entro no meu quarto e vou direto para o banheiro, que parece silencioso demais quando fecho a porta com cuidado.
Por um segundo, só fico parada, encarando meu reflexo no espelho. Demoro um pouco para me reconhecer em meio ao cabelo desalinhado, à maquiagem borrada, ao rosto pálido.
Engulo seco, abro a torneira e coloco as mãos embaixo da água, observando o sangue começar a se desfazer, escorrendo pelo ralo.
A adrenalina começa a se dissipar e a realidade finalmente começa a cair.
Esfrego os dedos uma vez. Duas. Três. Como se isso fosse suficiente, mas não é.

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