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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 85

Naquela manhã acordei um pouco mais disposta. Fui em diversas escolas e deixei currículos, mas estávamos em um período do ano em que as vagas já estavam completas. Eu sabia disso.

Fiz umas compras e enquanto retornava para casa comecei a pensar que talvez devesse mudar minhas estratégias e buscar emprego em outro ramo. Talvez secretária ou vendedora.

Dentro do ônibus senti aquela dor incômoda um pouco mais abaixo do intestino. Não era insuportável, mas era persistente. Eu me mexia no banco, tentando achar uma posição melhor.

Me sentia cansada de um jeito estranho, um cansaço que não era só físico. Cheguei, abri a porta e fui recebida pelo silêncio novamente. Coloquei a bolsa e as compras sobre a mesa, tirei os sapatos e me sentei no sofá por alguns minutos.

Estava pensando em me levantar para guardar as compras quando meu telefone tocou. Olhei o visor. Era Elvira, a diretora da escola. Atendi com a voz neutra, quase defensiva.

Elvira falou rápido, como sempre fazia quando estava animada. Disse que tinha sido coincidência, dessas que parecem pequenas bênçãos disfarçadas. Encontrara uma amiga, também diretora, de uma escola particular do outro lado da cidade. Conversa vai, conversa vem, Elvira mencionara meu nome. Falou do meu trabalho, da minha dedicação, da faculdade concluída. A amiga não prometera nada — fez questão de deixar isso claro —, mas demonstrara curiosidade. Queria me conhecer. Só isso. Um café. Uma conversa.

Enquanto Elvira falava, eu olhava para o chão, para uma pequena mancha antiga no piso da sala. A notícia não acendeu em mim a alegria que talvez devesse. Eu já conhecia bem aquele tipo de esperança frágil, feita de “vamos ver”, “quem sabe”, “te ligo”. Mesmo assim, respondi que iria. Agradeci. Não queria parecer ingrata.

Quando desliguei, o silêncio voltou a ocupar a casa, pesado. Fiquei alguns segundos olhando para o telefone na minha mão, como se ele ainda pudesse vibrar com outra ligação. Mas não vibrou.

Levantei-me devagar, decidida a guardar as compras, a fazer algo prático, concreto. Precisava de tarefas simples para não pensar demais. Dei dois passos em direção à cozinha e, de repente, o mundo girou.

Dessa vez, foi rápido. Uma vertigem súbita, como se o chão tivesse se afastado dos meus pés. Meu estômago revirou, o suor brotou frio na nuca. Parei. Voltei a sentar no sofá antes que minhas pernas falhassem de vez.

Não. Eu não podia fazer isso. Seria mais uma humilhação para a minha coleção. Adriano não me queria, estava claro.

A forma como Adriano me expulsou ecoou dentro de mim com a mesma força do momento em que aconteceu, como se eu ainda estivesse ali, no terreiro da fazenda, sentindo o chão fugir dos meus pés.

Ele agiu como se eu fosse irresponsável. Como se eu tivesse falhado por descuido, por negligência, e não por uma sucessão de acontecimentos que fugiram completamente ao meu controle. Mais do que isso: agiu como se nada íntimo tivesse existido entre nós. Como se aqueles dias na casa de praia fossem um delírio meu, uma invenção romântica que só eu carregava. A frieza dele doeu mais do que a demissão. Doeu porque apagava algo que, para mim, foi real.

Sacudi a cabeça espantando as lembranças e virei de lado na cama, abraçando o travesseiro como fazia quando era adolescente. O choro veio sem pedir licença. Primeiro silencioso, contido, depois mais solto, mais profundo.

As lágrimas escorriam e eu deixava. Não tinha mais forças para engolir tudo. Naquela noite, chorei até o corpo cansar, até o soluço virar apenas um respirar irregular. E ali, no escuro do meu quarto, com o som distante da cidade, adormeci não por estar em paz, mas por estar exausta.

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