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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 84

Levantei da cama e segui até o banheiro para fazer minha higiene matinal. Quando voltava para o quarto, ouvi o toque do telefone. Assim que o peguei vi o nome de Adriano e meu coração falhou uma batida.

Fiquei alguns segundos encarando o visor, sentindo uma mistura confusa de medo, expectativa e um fio absurdo de esperança que eu não queria admitir que ainda existia. Pensei em não atender. Pensei em deixar tocar até cair. Pensei em tudo o que eu diria se atendesse… e em tudo o que eu não teria coragem de dizer.

Atendi.

— Adriano…? — falei, num fio de voz que saiu mais frágil do que eu gostaria.

Houve um pequeno silêncio do outro lado. Um ruído leve, como se o telefone tivesse sido apoiado em algum lugar.

— Marja… — disse uma voz feminina, conhecida demais para não doer. — É a Benedita.

— Benedita… — respondi, engolindo em seco. — Aconteceu alguma coisa?

— Marja… — Benedita continuou — o seu Adriano ligou pra você porque… porque a Cecília quer ouvir sua voz.

Eu entendi tudo imediatamente. Ele fez a ligação, ouviu minha voz e não quis falar comigo. Contudo, havia uma questão mais urgente naquele momento.

— A Cecília está bem? — perguntei num sussurro.

— Ela tá deitada, quietinha. Desde ontem. Com febre. O médico já veio. Disse que não é coisa do corpo… — Benedita hesitou. — É coisa do coração.

Fechei os olhos.

— Ela não falou — Benedita disse, como se eu pudesse ter esquecido. — Mas ela pediu do jeitinho dela. Pegou o telefone, abraçou e não soltou. Só sossegou quando ouviu chamar seu nome.

Minha garganta se fechou de vez.

— O telefone tá aqui perto dela — disse Benedita. — Pode falar, Marja. Ela tá ouvindo.

Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Quando falei, minha voz já não era mais firme.

— Oi, meu amor… — comecei, devagar, como se estivesse entrando num lugar sagrado. — Oi, Ceci.

Houve um som do outro lado. Um movimento leve. Um suspiro pequeno.

— Sou eu, tá? A Marja. — Minha voz falhou no meu próprio nome. — Eu sei que você tá dodói… e eu queria muito, muito mesmo estar aí agora.

Engoli o choro que ameaçava sair.

— Você lembra quando a gente fazia aquele jogo de adivinhar as nuvens? — continuei. — Você sempre achava formas que eu nunca via. Eu achava que estava vendo um cavalo, e você… — sorri entre lágrimas — você via um dragão inteiro.

Minha mão tremia segurando o telefone.

— Você é a menina mais forte e inteligente que eu conheço, sabia? Você fala com tudo: com o olhar, com o jeitinho de segurar a mão da gente… com esse coração enorme.

Ouvi um som baixo. Benedita fungou.

— Eu tô com saudade, Ceci — falei, agora sem conseguir segurar o choro. — Muita saudade. Todo dia. Toda hora.

As lágrimas começaram a cair, quentes, desordenadas.

— E eu te amo. Amo demais. Do tamanho do céu inteiro… e um pouco mais.

O sol já estava alto, e o calor começava a se impor. Caminhei até o ponto, peguei o ônibus e segui olhando pela janela.

A dor no estômago voltou durante o trajeto, um pouco mais forte. Inclinei-me levemente para frente, pressionei a barriga e respirei devagar até passar. “Ansiedade”, concluí. Eu estava nervosa com a conversa que teria. Era normal.

Desci perto da escola e caminhei até o portão. Entrei e fui direto à secretaria. A moça atrás do balcão me reconheceu, sorriu com surpresa e chamou a diretora.

Esperei sentada numa cadeira de plástico, olhando os murais cheios de trabalhos das crianças. Desenhos tortos, letras grandes, cores exageradas. Senti um aperto no peito. Era ali que eu me sentia útil. Inteira.

Elvira, a diretora, apareceu pouco depois. Era a mesma, com o mesmo coque apertado e os óculos pendurados na ponta do nariz. Ela me cumprimentou com cordialidade, mas sem o entusiasmo que eu secretamente esperava.

Entramos na sala dela. Contei, de forma resumida, que estava de volta à cidade, que tinha terminado a faculdade, que gostaria de saber se havia alguma possibilidade de retornar. Ela me ouviu com atenção, mãos cruzadas sobre a mesa. Quando terminei, suspirou.

— Marja, eu gosto muito de você e do seu trabalho — começou escolhendo as palavras com cuidado. — Mas infelizmente a sua antiga vaga já foi ocupada. Não temos nenhuma previsão de abertura no momento.

Senti como se o chão cedesse um pouco sob meus pés. Assenti com a cabeça, tentando manter a postura.

— Eu entendo — respondi, a voz firme apesar do nó na garganta. — Obrigada por me receber.

Ela ainda tentou suavizar, dizendo que me avisaria caso surgisse algo. Deixei o meu novo número, aquele que passei a usar quando cheguei na fazenda. Agradeci novamente, levantei e saí.

No corredor, me deu vontade de chorar. Eu sempre fui assim: quando as coisas não davam certo, eu sentia vontade de chorar.

Do lado de fora, o sol parecia ainda mais forte. Caminhei sem destino porque precisava andar, ocupar a cabeça, fingir normalidade.

E amanhã voltaria a procurar emprego novamente.

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