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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 86

ADRIANO

Deitei-me exausto naquela noite. O corpo doía de um jeito difuso, como se cada músculo tivesse sido usado além do limite, mas o cansaço maior não vinha do físico. Era um peso antigo, conhecido, que eu carregava comigo e que parecia ganhar força sempre que o silêncio chegava.

Apaguei a luz, virei de lado, tentando encontrar uma posição que enganasse o corpo e aquietasse a cabeça. Não consegui pensar em mais nada conscientemente. O sono veio pesado, abrupto, como se eu tivesse sido puxado para dentro dele. E sonhei.

No sonho, eu e Antonella caminhávamos de mãos dadas. Não havia sol, mas a estrada era longa e iluminada. Ela usava um vestido branco que balançava levemente.

Eu não falava nada. Ela também não. Caminhávamos assim, passo a passo, e eu sentia uma paz estranha, quase dolorosa de tão boa. Uma paz que eu não sentia acordado há anos.

Em algum momento, percebi que Antonella parou e soltou a minha mão.

O gesto foi simples, sem brusquidão. Apenas soltou. Minha mão ficou suspensa no ar por um segundo longo demais, como se ainda esperasse o toque que não voltou.

Antonella deu um passo para trás ainda olhando para mim. Meu primeiro impulso foi ir até ela, porém ela fez um gesto com a mão. Um gesto claro, calmo, definitivo. “Não venha. Eu vou sozinha”.

Fiquei parado no meio da estrada, sentindo os pés colados ao chão, como se raízes invisíveis me prendesse ali.

Então ela passou por mim e seguiu sozinha. Observei Antonella se afastar, ficando cada vez menor na imensidão da estrada. O vestido branco balançando, o contorno do corpo ficando menos nítido.

Tentei dar mais um passo, mas algo em mim se recusava. Ou algo fora de mim me impedia. A estrada parecia se alongar, esticar-se entre nós, como se quisesse garantir que aquela distância fosse definitiva.

— Antonella, não vá!. Não me deixe só! — eu implorei.

Mas ela não olhou para trás.

Acordei num sobressalto, puxando o ar com força, como se tivesse ficado tempo demais submerso. O coração batia descompassado, tão forte que eu podia senti-lo na garganta. Levei a mão ao peito instintivamente, tentando me certificar de que ainda estava ali, inteiro.

O lençol estava encharcado. Minha camiseta grudava no corpo, pesada de suor. Passei a mão pelo rosto e senti a pele quente, úmida. Demorei alguns segundos para entender onde estava. Meu quarto. A escuridão familiar.

Sentei-me na cama, respirando fundo, tentando acalmar o corpo.

Levantei-me devagar. As pernas pareciam fracas, como se eu realmente tivesse caminhado por quilômetros. Atravessei o quarto em silêncio, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Abri a janela.

A noite estava fechada. Sem lua visível. Apoiei as mãos no parapeito da janela e fiquei ali, respirando o ar fresco da madrugada. O contraste com o calor do meu corpo fez-me arrepiar. Passei a mão pelos cabelos, bagunçando-os sem perceber.

Fiquei pensando no significado daquele sonho. Fechei os olhos por um instante, apoiando a testa na madeira da janela e a revelação veio forte, como um tapa: meu coração estava dizendo adeus para Antonella. Ou talvez ela estivesse dizendo que eu teria que seguir sem ela a partir de agora.

Fiquei ali, imóvel, encarando a noite, como se ela pudesse me responder alguma coisa. E então, afastei-me da janela como quem se afasta de um abismo. Eu precisava tomar uma decisão e era agora. Na verdade, eu já sabia o que precisava fazer havia tempos, mas sempre faltou coragem.

As horas passaram sem que eu percebesse. Quando dei por mim, havia um amontoado de caixas empilhadas perto da porta. Lacrei cada uma com fita, pressionando bem as bordas, como se estivesse selando um acordo comigo mesmo. Ao terminar, fiquei em pé no centro do quarto e olhei em volta.

Ele parecia maior. Ou talvez eu estivesse mais leve.

Desci com esforço, levando as caixas uma a uma até a picape. A noite estava fria, o céu limpo. Coloquei tudo na caçamba, organizei para que não caíssem, cobri com uma lona. Amanhã, pensei. Amanhã vou doar tudo. Amanhã essas coisas vão aquecer outras vidas, ocupar outros espaços, criar novas histórias.

Fechei a lona e voltei para dentro.

Subi as escadas devagar, sentindo o corpo cansado, mas a mente estranhamente desperta. Ao entrar no quarto, algo me surpreendeu: o silêncio não era opressor. Era apenas silêncio. Sem ecos. Sem fantasmas se movendo pelos cantos. Sentei-me na cama

Eu me sentia livre.

Não livre da dor — ela ainda existia, e sempre existiria — mas livre da prisão que eu mesmo construí em nome da culpa. Livre do altar que mantive erguido enquanto deixava o resto da vida passar do lado de fora.

Deitei-me e apaguei a luz. Pela primeira vez desde que Antonella morreu, o quarto não me pareceu um mausoléu. Parecia apenas um quarto. Um espaço onde o amanhã podia entrar.

Mas a libertação ainda não estava completa. Faltava ainda algumas coisas a serem feitas e aí depois de tudo concluído eu estaria liberto totalmente.

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