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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 71

Quando acordei, o silêncio era outro. Não o silêncio sufocante do furgão, mas um silêncio acolhedor. Abri os olhos devagar, com medo do que encontraria e doeu me mover. Entendi naquele momento que estava no hospital. Um alívio tão grande me atravessou que meus olhos se encheram de lágrimas antes mesmo que eu percebesse.

Virei a cabeça lentamente e parecia que a cena se repetia. Adriano estava ali. Embora a situação fosse outra, ele era sempre o herói que me salvava do perigo.

Adriano se aproximou e segurou minha mão com cuidado. Aquele toque simples desfez algo dentro de mim. Comecei a chorar.

— Você está segura agora — ele disse. — Está tudo bem.

— Eu vi você… — murmurei, tentando organizar os pensamentos.

Ele fechou os olhos por um segundo e respirou.

— Viu, sim — respondeu. — Eu estava lá.

Eu quis saber tudo. Precisava saber.

— A polícia o prendeu? — perguntei com ansiedade.

— Sim.

— Como tudo aconteceu?

Vi no rosto dele que não queria reviver aquilo, nem me fazer reviver. Mas eu insisti, apertando levemente sua mão.

— Por favor...

— Eu cheguei com a polícia — começou. — Chegamos no momento em que ele… — a voz falhou, ele engoliu em seco — …em que ele estava te espancando dentro do furgão.

Fechei os olhos. Uma onda de náusea passou por mim, mas continuei ouvindo.

— A polícia agiu rápido. Tiramos você de lá. Ele foi preso na hora e eu te trouxe direto para cá.

Abri os olhos novamente e encontrei os dele. Ficamos nos encarando sem palavras. Ter Adriano por perto naquele momento me aqueceu por dentro de um jeito estranho, dolorido e bom ao mesmo tempo.

— Tem alguém que precisa falar com você — disse com cuidado.

Antes que eu pudesse perguntar quem, um policial entrou no quarto. Era um homem de meia-idade, expressão séria e olhar respeitoso.

— Boa noite, Marja — disse ele. — Meu nome é Roberto. Vim registrar seu depoimento, se você se sentir em condições.

Olhei para Adriano. Ele assentiu, me apoiando silenciosamente.

— Estou — respondi, apesar do medo que voltou a se insinuar.

O policial se sentou e começou a explicar, com calma, cada passo. Eu contei o que lembrava, desde a festa até o momento em que reconheci a voz de Gino. Cada palavra era difícil, mas necessária. Quando terminei, senti um peso estranho sair do peito.

— Gino está detido — informou o policial. — Já foi encaminhado à delegacia e, após os trâmites legais, será transferido para o presídio.

Minhas mãos tremeram levemente, mas Adriano apertou meus dedos, firme, presente. O policial prosseguiu:

— Gino vinha seguindo os passos da sua amiga Jana há algum tempo — explicou. — Quando soube que ela viria para a fazenda, ele a seguiu. Trouxe um comparsa com ele.

Meu estômago se revirou.

Enquanto o médico me examinava, eu lembrava dos chutes violentos recebidos. Ele anotava tudo.

Mandaram-me virar de costas. Havia marcas nos meus ombros, nas costas, na lateral da cintura. Cada roxo tinha um tom diferente, como se meu corpo estivesse pintado por uma violência em camadas.

Depois vieram os exames laboratoriais. Fui para outra sala menor dentro da mesma sala. Coletaram meu sangue, em seguida pediram urina e me deram um copinho plástico. Fui até um banheiro pequeno, porta que não fechava direito. Eu me sentei ali, sozinha por alguns segundos e chorei. Chorei baixo. Silencioso. Um choro contido.

Quando voltei, Lúcia me entregou um copo de água.

— Você está sendo muito forte — ela disse.

Eu não me sentia forte. Eu me sentia vazia.

O médico terminou o laudo. Assinou. Carimbou.

— Está feito. Esse exame comprova as agressões. Vai ser anexado ao inquérito.

Quando me vesti de novo, a roupa parecia não caber direito no meu corpo machucado.

Antes de sair da sala, ouvi Lúcia dizer:

— Marja, o que aconteceu com você não foi sua culpa.

Quando saí da sala Adriano me esperava no corredor. Estava sentado numa cadeira plástica e se levantou rapidamente quando me viu. Se aproximou de mim e colocou um braço sobre os meus ombros, enquanto caminhávamos em silêncio em direção ao carro dele.

Graças a Deus estávamos indo para casa. Eu só queria dormir e esquecer tudo.

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