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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 70

Eu acordei com o corpo inteiro doendo, como se tivesse sido atropelada. A primeira sensação foi a da cabeça latejando, uma dor surda, profunda, que parecia pulsar no ritmo do meu coração.

Tentei levar a mão à testa e não consegui. Foi aí que o pânico começou a se infiltrar, devagar, como um veneno frio.

Minhas mãos estavam amarradas à frente do corpo, presas por cordas grossas, ásperas, que queimavam a pele a cada movimento involuntário. Tentei mexer as pernas. Nada. Os pés também estavam amarrados. Um nó apertado, firme, feito por alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

Respirei fundo, ou tentei. O ar tinha um cheiro forte de óleo velho, poeira e algo metálico. Abri os olhos com dificuldade. A luz era fraca, entrando por alguma fresta que eu não conseguia ver direito. O teto era baixo demais. As paredes, próximas demais. Levei alguns segundos — talvez minutos — para entender.

Eu estava deitada sobre um colchonete velho, fino, manchado, jogado no chão de metal de um furgão. O furgão. O mundo pareceu girar. A memória voltou em flashes desordenados: a festa, o barulho, a mão segurando meu braço, algo pontudo encostado nas minhas costas, a voz. Aquela voz. O terror voltou com força total, me fazendo engolir um soluço. Gino havia me sequestrado.

Meu corpo começou a tremer sem que eu conseguisse controlar. Eu não sabia se era de frio ou medo. Eu estava usando apenas calcinha e sutiã. Nada mais. A sensação de vulnerabilidade era esmagadora, como se o ar tivesse peso e me pressionasse contra o chão.

— Não… não… — murmurei, embora minha voz mal saísse.

Tentei me sentar. Cada movimento parecia exigir uma força que eu não tinha. O colchonete escorregou um pouco quando consegui apoiar o cotovelo. A cabeça girou novamente, a dor se intensificou, mas eu forcei. Precisava entender. Precisava estar acordada de verdade.

O furgão estava parado. Antes que eu pudesse pensar em qualquer plano — fugir, gritar, bater — ouvi o som que fez meu sangue gelar: a trava da porta sendo destravada.

O rangido metálico da porta se abrindo soou alto demais naquele espaço pequeno. A luz de fora invadiu o interior do furgão, me cegando por um instante. Levei a cabeça para o lado, tentando proteger os olhos. E vi Gino entrar.

Meu estômago revirou. Meu corpo inteiro enrijeceu. O medo era tão intenso que parecia me paralisar por dentro. Ele fechou a porta atrás de si com calma, como se tivesse todo o tempo do mundo. O clique seco da tranca ecoou como uma sentença.

Eu consegui me sentar no colchonete, apoiando as costas na lateral do furgão. Cada músculo do meu corpo gritava. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele ia explodir em poucos instantes.

Gino se aproximou devagar. Havia algo nos olhos — uma mistura de triunfo e obsessão — que me fez querer desaparecer.

Ele se abaixou à minha frente, ficando na mesma altura que eu. Pude sentir o cheiro dele, próximo demais. Meu corpo reagiu com náusea.

— Finalmente eu te encontrei — ele começou, a voz baixa, carregada de algo que me fez estremecer. — Agora você vai ser minha de verdade.

Meu corpo inteiro se encolheu instintivamente. Balancei a cabeça em negação, lágrimas já escorrendo sem que eu percebesse.

— Eu podia ter te possuído enquanto você estava desacordada — ele continuou falando rápido, uma frase atropelando a outra — mas eu quero que você sinta tudo. Quero que esteja acordada. Quero que entenda. Quero que… goste.

Cada palavra era como uma lâmina. Meus olhos se arregalaram, o terror puro tomando conta de mim. Eu tentava respirar, mas o ar parecia não chegar aos pulmões.

— Por favor... me deixa ir — eu implorei.

O mundo parecia distante, como se eu estivesse submersa. Tudo o que eu conseguia fazer era chorar. Um choro descontrolado, desesperado, que sacudia meu corpo inteiro. Eu gritava por socorro, mas nem eu mesma conseguia ouvir o som da minha voz.

Gino se levantou, impaciente. Caminhou até um canto do furgão e pegou algo. Quando voltou, vi a fita adesiva na mão dele.

Meu choro se transformou em pânico puro. Balancei a cabeça com força, tentei recuar, mesmo presa, mesmo sem espaço. A fita colou sobre minha boca, abafando completamente qualquer som. Tentei gritar mesmo assim, mas só um ruído fraco escapou. As lágrimas escorriam livres agora, molhando meu rosto, a fita, minhas mãos amarradas.

Ele me olhou por alguns segundos. Passou as mãos ásperas pelo meu rosto e foi descendo pelo meu pescoço até alcançar o meio seio, minha barriga. Ele abaixou o rosto lentamente; não sei o que pretendia fazer, mas eu, mesmo com as pernas amarradas levantei os dois joelhos. Foi um ato instintivo que o acertou com força no queixo.

Gino parou por um segundo ao receber o golpe, mas logo em seguida começou a me espancar sem piedade. Recebi socos, chutes murros no rosto, até não senti mais nada, quando meus sentidos começaram a se perder em algum lugar.

A dor vinha em ondas, cada uma mais pesada que a anterior. Eu já não sabia dizer quantos socos tinha recebido. O tempo tinha se dissolvido dentro daquele furgão, transformado numa sucessão de golpes, medo e um cansaço tão profundo que parecia me puxar para longe do próprio corpo.

Antes de tudo escurecer de vez, algo diferente aconteceu. A porta do furgão se abriu. Uma luz forte entrou de repente, branca demais, quase irreal. Por um instante pensei que fosse delírio, invenção da minha mente, mas o ar mudou. Houve gritos. Vozes. Um tumulto confuso que atravessou o meu torpor.

E então eu vi. Ou achei que vi. Uma silhueta conhecida avançando rápido, um corpo grande, decidido. Um rosto que eu conhecia bem. Era Adriano.

O que havia em mim naquele instante era o último fio de consciência se rompendo. E então, o mundo se apagou como uma lâmpada quebrada.

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