Receber alta foi um alívio enorme. Mesmo com o corpo dolorido e cheio de manchas roxas espalhadas, eu estava feliz em ir para casa e senti vontade de chorar de alegria.
Assim que Adriano saiu do estacionamento do hospital, parou logo adiante na frente de uma delicatessen.
— Você quer um sorvete?
— Quero sim.
Ele desceu e entrou no estabelecimento. Fiquei no carro esperando e por não ter o que fazer, fui mexer no meu celular. Me cansei e abri o porta-luvas. Havia muitos papeis amassados, mas o que me chamou atenção foi uma fotografia em papel grosso, sem moldura. Estava dobrada. Eu peguei. Vi Adriano e Antonella juntos. Eles sorriam; pareciam verdadeiramente felizes. Antonella era bonita demais; morena com cabelos acobreados, longos e cacheados.
Aquela foto guardada era mais uma prova do amor de Adriano por Antonella. O tipo de amor que nunca morria. Ele jamais a esqueceria. E naquele meio eu era tão pequena! Tão insignificante! Mas já estava começando a me acostumar que dele eu só teria pequenas coisas.
Adriano voltou alguns minutos depois com dois copinhos de sorvete de morango com chocolate. Ficamos dentro do carro parado na frente do estabelecimento até o sorvete acabar.
— Vai querer mais alguma coisa? — Adriano perguntou.
— Você está parecendo o Gênio da Lâmpada. “O seu desejo é uma ordem”.
Adriano riu de um modo diferente.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. É que minha mãe costumava contar a história do Gênio da Lâmpada.
Naquele momento, constatei algo que já sabia. Adriano tinha medo de se expor, por isso vivia constantemente escondido dentro de uma casca grossa. Mas no fundo ele era sensível; muito sensível.
O trajeto até a fazenda foi silencioso. Eu observava a paisagem passar pela janela, os campos se abrindo, o verde retomando espaço depois do concreto da cidade. A cabeça estava pesada com tudo o que havia acontecido, mas a presença de Adriano ao volante me mantinha ancorada.
— Está tudo bem? — perguntou em certo momento, sem tirar os olhos da estrada.
— Está — respondi.
Quando entramos nas terras da fazenda, algo dentro de mim relaxou. Era como se o lugar me dissesse em silêncio, que eu estava protegida ali.
Já estava perto do horário do almoço quando o carro parou em frente ao casarão. Antes mesmo que Adriano desligasse o motor, vi movimento na varanda. A mesa estava posta, grande, bonita, como nos dias especiais. Pratos, talheres, copos alinhados, travessas cobertas esperando o momento certo.
Desci do carro devagar. Adriano caminhava ao meu lado, sempre me observando. Jana veio correndo pela varanda, desceu os poucos degraus quase tropeçando e me envolveu num abraço apertado, cheio de urgência.
— Eu achei que fosse te perder — disse, a voz embargada. — Me desculpa… me desculpa…
— Não — respondi, apertando-a de volta, sentindo as lágrimas escaparem. — Não faz isso. Não foi culpa sua.
Ela estava falando de Danilo e parecia genuinamente abalada com isso. Mexia na comida sem realmente comer.
— Ele foi tão… normal — continuou. — Gentil até. Dançou comigo, conversou, riu. Eu nunca imaginei.
— Essas pessoas sabem exatamente o que estão fazendo — Leon comentou, sério. — É assim que enganam.
Eu observei Jana em silêncio. Via nela uma mistura de culpa e choque.
— Jana, para com isso! Não foi culpa sua, já falei.
Ela me olhou, os olhos marejados. Depois respirou, como se tentasse aceitar o que eu falei.
Adriano permaneceu calado por alguns instantes, apenas ouvindo. Quando falou, sua voz era baixa, mas firme.
— O importante é que acabou — disse. — Eles estão presos. Não vão chegar perto de você de novo.
O almoço seguiu assim, entre conversas cuidadosas, pausas longas, tentativas de leveza. Eu escutava, absorvendo cada detalhe, sentindo-me estranhamente protegida naquele círculo.
Quando o almoço chegou ao fim, ninguém parecia com pressa de se levantar. O sol atravessava a varanda, desenhando sombras suaves no chão. Ficamos sentados por algum tempo. Adriano e Leon jogando conversa fora; eu e Jana apenas escutando.

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