KALEL
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Se tivesse uma janela no escritório, eu a pularia com certeza, é meio absurdo um pai ter que fugir de uma filha da forma como eu estava tentando fazer, mas havia muita coisa em jogo.
Eu respirei fundo tentando manter o controle pra ela não perceber nada.
Eu abri a porta, e sustentar o meu olhar no dela foi um sofrimento, a Valentina conseguia ler as pessoas só com o olhar, era um dom que ela tinha.
— O que foi agora, Valentina?
Perguntei tentando ser o mais natural possível.
Ela entrou no meu escritório e me encarou.
Valentina: Sabe pai, eu fiquei curiosa, porquê um homem como você precisaria ir no quarto da empregada trocar a colcha dela e deixar tudo arrumado e cheiroso?
— Eu fui deitar lá Valentina, eu não queria correr o risco de ser incomodado, eu não queria papo com você e nem com ninguém, e eu sabia que no quarto da empregada era o último lugar que alguém iria me procurar, agora que o meu esconderijo já foi descoberto e você já matou a sua curiosidade, você pode se retirar pois eu continuo não querendo bater papo.
Ela ficou me olhando tentando decidir se acreditava em mim ou não.
Valentina: E quando foi isso?
— Eu não estou entendendo o motivo de tantas perguntas Valentina, eu cometi alguma crime?
Valentina: Não sei pai, me diz você?
— Minha filha, eu estou com dor de cabeça, totalmente arrependido de ter tirado férias, os meus dias de descanso estão sendo de puro estresse e tudo o que eu quero é ter um pouco de paz e isso você não está me dando, agora saia do meu escritório e me deixe quieto, por favor.
Ela deu uma risadinha irônica e saiu, e um ar de alívio tomou conta dos meus pulmões, mas eu sabia que uma pulguinha havia se instalado atrás da orelha da Valentina, e eu não podia dar nenhum vacilo.
Os dias foram se passando, e eu estava cada vez mais distante da minha filha e o tio dela cada vez mais próximo dela, eu não participei de nada na preparação do aniversário dela, ela fez questão de me manter fora de todas as decisões e isso estava me magoando de um jeito que eu não sabia explicar.
A Sofia sumiu, e eu pensava nela todos os dias, mas eu tentei me convencer que era melhor assim, eu não conseguiria ficar convivendo com ela sem tocá-la depois de tudo o que já aconteceu.
Por diversas vezes eu senti vontade de perguntar pra Valentina o que de fato aconteceu com a amizade das duas, mesmo eu sabendo que tudo tinha haver com o tio dela, mas ele também deveria ser responsabilizado e aparentemente ela estava o tratando normal, eu tinha medo de entrar nesse assunto e deixá-la ainda mais desconfiada, eu sabia que ela não tinha engolido a justificativa do quarto, então a Sofia havia se tornado um assunto proibido pra mim.
A Valentina não tinha o mesmo brilho nem a mesma alegria de antes, ela ficou cada vez mais fria e calada, e por mais que eu quisesse acalentá-la e abraçá-la, eu não tinha coragem, eu não sabia que o fato do tio dela comer a Sofia iria machucá-la tanto ao ponto da amizade acabar.
Faltava apenas dois dias pro aniversário dela, e ela não parecia tão animada quanto antes, ela convidou apenas a equipe de futsal que ela simplemente deixou de frequentar, e alguns amigos da escola, a minha família morava fora do país então seria algo só pra amigos.
Estávamos nós três almoçando, eu a Valentina e o tio dela quando eu arrisquei perguntar como ela estava se sentindo com a chegada do aniversário dela, mas me arrependi na mesma hora que perguntei.

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