Quando Margarida mandou Augusto se explicar, no fundo, já não esperava uma resposta que prestasse. O que ela não imaginava mesmo era que, ao invés de qualquer conversa honesta, Augusto tentaria se impor, tentando prendê-la à força, como se realmente tivesse algum direito sobre a vida dela.
Mas Margarida nunca esteve em dívida com ele e muito menos era cachorro de ninguém. Se quisesse ir embora, ia. Se quisesse ficar com outro, isso nunca foi da conta de Augusto.
Agora, com o olhar frio de quem já superou muita coisa, ela nem hesitou em fechar o zíper da mala com decisão, pronta para sair dali de uma vez por todas.
Só que, de repente, a porta bateu forte bem na sua frente. Augusto se colocou entre ela e a saída, o corpo ereto bloqueando toda chance de escape, enquanto a voz dele, rouca e carregada de frustração, cortou o silêncio:
— Marga, você mudou. Não é mais aquela de antes.
— Augusto, quem não muda com o tempo? Só que o que você chama de mudança é, na verdade, sua raiva por não conseguir mais me manipular nem me controlar usando esse papo de amor. — Respondeu Margarida, sem conseguir se soltar, presa entre a porta fechada e o peito do ex-namorado.
Vendo que forçar não adiantava, ela largou a mala, virou de frente para ele com firmeza, e encarou Augusto sem baixar os olhos nem por um segundo.
— E tem mais, será que só eu mudei, ou você também já não é o mesmo de antes?
O choque apareceu nos olhos de Augusto. Demorou um pouco, mas ele enfim murmurou, numa voz abatida:
— Então é isso. Não importa o que eu fale, você vai embora de qualquer jeito hoje.
Margarida reagiu apenas com um sorriso sereno, mas o brilho nos olhos mostrava que sua decisão era inabalável.
— É isso mesmo, Augusto. Eu já estou oficialmente casada com o Vicente, e logo você vai assumir seu noivado com a Leonor. Cada um de nós escolheu um caminho, então acho melhor cada um seguir em frente.
Era verdade. Os dois tinham se casado oficialmente. Mas, aos olhos de Augusto, desde aquela noite do evento, faltava qualquer coisa entre eles que lembrasse um casal de verdade.
Naquele dia, Margarida não soltou a mão de Vicente, ficou firme mesmo quando o Guilherme pressionou, não arredou o pé.
Augusto conhecia Margarida havia treze anos, sabia decifrar cada sinal quando ela amava alguém. Só que o que via agora era uma confiança entre ela e Vicente, mas não o calor típico de quem se entregava de corpo e alma.
No caso de Vicente, ele também parecia se controlar demais, nunca passava da linha. Pareciam dois parceiros de pacto, não marido e mulher.
— Por isso, comecei a desconfiar. — Augusto a encarou. — Tudo isso aí é só fachada, não? Quando vi você peitar a Marina para defender o Vicente, vi lealdade. Mas paixão mesmo não está ali.

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