A luz morna do abajur jogava um brilho suave pelo cômodo, e o semblante de Vicente, tão frio e inacessível há instantes, agora carregava apenas a preocupação sincera enquanto ele segurava firme a mão de Margarida e verificava cada detalhe, ansioso por saber se ela estava bem.
— Você se machucou? — Ele perguntou com aquela voz rouca, a culpa pesando nas palavras. — Me desculpa mesmo. Não devia ter deixado você vir até aqui sozinha. Eu sou quem devia ter passado para te buscar.
Margarida apenas balançou a cabeça por reflexo. Demorou uns segundos até conseguir responder, pois parecia que, de repente, tinha até perdido a voz.
Não era a primeira vez que Vicente ajudava ela, mas nunca tinha ficado tanto tempo segurando sua mão assim, sem soltar um minuto. O mais estranho era que, diferente de antes, Margarida não sentiu desconforto, pelo contrário, quase que teve vontade de apertar ainda mais forte os dedos dele.
No fim, segurou o impulso e se obrigou a quebrar o silêncio:
— Não me machuquei, Sr. Vicente. E sério, não precisa pedir desculpa. Eu só fiquei receosa de você aparecer lá na família Carvalho, porque pode acabar escancarando nosso plano. Não é culpa sua não ter me buscado, de verdade.
No fundo, só estava passando por aquilo tudo devido às fofocas mentirosas do Augusto e daquela foto que ele espalhou. Se não fosse aquilo, ninguém estaria pegando no pé dela. Não tinha como botar a culpa no Vicente.
Vicente ficou em silêncio, apenas olhando para ela. Quando viu o jeito meio atrapalhado de Margarida, com as bochechas vermelhas de vergonha, acabou apertando a mão dela ainda mais forte. O calor daquele toque era tão intenso que Margarida até achou que fosse derreter ali mesmo, presa entre os dedos dele.
Ela tentou se soltar, disfarçando o constrangimento.
— Sr. Vicente, talvez seja bom você me soltar, né?
— Poxa, foi falta de atenção minha mesmo. — Respondeu ele, soltando a mão dela de repente, a voz saindo num tom baixinho e rouco. — Eu acabei te machucando?
— Não... — Margarida soltou um risinho nervoso, tentando deixar o clima menos estranho. — Mas me diz aí, Sr. Vicente, com tanta gente na rua, como foi que você conseguiu me encontrar tão rápido?
— Porque, para mim, não importa quantas pessoas tenham. Eu sempre vou saber onde você está.
Mudando de ideia, ele revelou o próximo passo:
— O Augusto ainda não conseguiu um bom lugar para coletiva de imprensa. Acho que vou dar um jeito de ceder o Hotel Luar para ele.
Desse jeito, a coletiva seria do tamanho que Margarida queria e ainda seria o palco perfeito para o plano dar errado bem na frente do Leonor e do Augusto, do jeito mais espetacular.
Dessa vez, Margarida nem disfarçou, abriu um sorriso só de imaginar a cena.
— Olha, Sr. Vicente, com essa sua saiu estratégia, a coletiva vai acontecer rapidinho. Assim você não fica tanto tempo esperando.
— Acelerar as coisas é sempre bom. — Respondeu Vicente, tomando um gole de café enquanto mantinha os olhos firmes nela. Depois, baixou a xícara e falou num tom mais calmo, quase carinhoso. — Mas, Marga, acho que você está enganada sobre uma coisa. Não fiquei esperando à toa todo esse tempo, não. Na verdade, estive bem ocupado cuidando da reforma da nossa casa nova.

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