Depois de se convencer de que devia ter "escutado errado" aquela frase suspeita, Leonor logo voltou a sorrir e fez questão de ficar grudada em Augusto até que ele terminasse de tomar o soro no hospital. Quando enfim foram para casa, Leonor ficou toda melosa, cuidando dele como se fossem um casal de comercial de margarina.
Assim que entraram em casa, viram Margarida descendo as escadas. Sem perder a pose, Leonor tomou a frente e lançou um olhar vitorioso.
— Margarida, aposto que veio até aqui só porque soube que o Augusto está doente, não é? Pois pode voltar por de onde veio, porque quem vai cuidar dele sou eu! Não fica aqui tentando atrapalhar o nosso momento a dois!
Margarida sequer gastou energia olhando para os dois. Simplesmente desviou, saiu da casa da família Carvalho e não olhou para trás.
Achando que tinha "arrasado", Leonor se esfregou ainda mais em Augusto, rindo satisfeitíssima. Só que Augusto, calado, apenas deixou o olhar escurecer. Voltou para o quarto, deitou-se e pediu para Pedro acompanhar Leonor até a porta.
Dessa vez, apesar de claramente não querer ir embora, Leonor percebeu o cansaço sincero de Augusto, que já não disfarçava o desconforto no estômago, e resolveu ceder. Logo seria oficialmente esposa dele mesmo, ia ter muito tempo para ficar toda apaixonadinha depois. Não precisava ter pressa agora!
Na sua habitual discrição, Pedro levou Leonor até o carro. Quando Pedro voltou ao quarto levando a xícara de água com mel, logo percebeu que Augusto já não estava mais deitado. Agora de pé junto à janela, ele girava entre os dedos uma pequena escultura de barro, examinando de perto, era fácil notar que aquela figura era uma miniatura perfeitamente feita dele mesmo.
Assim que sentiu a presença de Pedro, Augusto apertou o boneco na mão e perguntou, ansioso:
— Margarida já voltou? Ela ficou incomodada vendo a Leonor comigo? Será que ficou chateada?
— Não quero. Vou esperar a Margarida. — Augusto segurou a miniatura, balançando a cabeça, com um olhar pálido. Seus olhos, fixos na taça, estavam cheios de uma tristeza silenciosa. — Não precisa mais preparar água com mel para mim.
Afinal, aquele sabor só tinha sentido quando era Margarida quem fazia para ele.
...
Enquanto isso, do lado de fora, Margarida havia acabado de sair da casa da família Carvalho, ainda tentando digerir o enjoo que sentiu ao ver Augusto e Leonor tão próximos, mas, só de pensar que logo veria Vicente, aquela sensação ruim foi perdendo força, dando espaço a um alívio difícil de explicar.

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