Marcos ficou de queixo caído, piscando feito bobo.
— Como é?
— Você vai cuidar de tudo pessoalmente, e pouco importa como a Teresa quer organizar essa exposição ou quanta grana ainda está faltando, porque a gente vai bancar até o último centavo. — Vicente declarou, com firmeza.
Marcos ficou mudo, e dessa vez não era só pela generosidade de dar medo de Vicente, mas principalmente porque tudo o que ele achava que sabia sobre o chefe havia virado pó em questão de segundos.
Será que esse tal mestre M tinha um poder hipnótico tão absurdo assim, capaz de fazer Vicente jogar fora todos os princípios que seguia religiosamente há anos?
Marcos ainda tentava entender aqueça reviravolta quando nem conseguiu dar uma pergunta, porque a porta do escritório foi arrombada sem a menor cerimônia.
Lorenzo surgiu na porta meio desconcertado, obviamente porque havia ficado de orelha colada do lado de fora pescando cada palavra da conversa alheia.
— Vicente, já que você decidiu bancar a exposição da Teresa, eu também vou meter uma graninha no negócio, uns poucos milhões só para não ficar de fora... Mas não vai pensando bobagem, estou fazendo isso só porque você está envolvido, não tem nada a ver com a Teresa. — Lorenzo disparou, tentando soar como se estivesse fazendo um favor.
Vicente nem se dignificou a tirar os olhos dos papéis que assinava.
— Fica sossegado que não vou criar fantasia na cabeça, e a Teresa muito menos, porque enquanto você ficar grudado com a Nanda, ela vai continuar te tratando que nem esgoto ao ar livre.
Enquanto Nanda continuasse pendurada em Lorenzo, Teresa jamais sentiria qualquer coisa por ele, além de repulsa profunda e irritação crônica.
Lorenzo azedou a expressão na hora e perdeu completamente a pose de homem que não se importava com nada.
— Vicente, você sabe que só estou aturando a Nanda pela saúde dela, e, além disso, nestes últimos dois meses de tratamento intensivo, ela apresentou uma melhora considerável. Os médicos até falaram que ela pode receber alta e tentar viver uma vida normal, trabalhar e seguir em frente. Logo mais não vou precisar mais fazer papel de babá dela.
— Ah, é mesmo? — Vicente ergueu o olhar devagar, num movimento calculado que carregava toneladas de ironia e descrença.
Augusto berrava por médicos sem parar, numa histeria que certamente deixaria Leonor nas nuvens de felicidade, considerando quantas vezes Margarida havia escutado ela se lamentando que Augusto demonstrava frieza e desinteresse pelos sentimentos dela.
Só que Margarida se sentia estranhamente dividida por dentro, remoendo pensamentos contraditórios sobre Augusto que não visitavam sua mente há meses.
O que havia acontecido durante aqueles segundos aterrorizantes do acidente tinha sido algo que desafiou suas expectativas sobre o caráter dele, deixando ela abalada e confusa.
Naquele momento tenso, o estrondo pesado de uma porta sendo escancarada com força, cortou o silêncio hospitalar.
Margarida ergueu a cabeça num reflexo, mas antes que conseguisse processar qualquer coisa, já estava sendo envolvida por braços musculosos e familiares que a prensaram contra um peito sólido, enquanto a respiração irregular e desesperada de Vicente esquentava a pele sensível do seu pescoço.
— Marga, demorei para chegar até você. — Ele sussurrou com a voz quebrada de culpa.

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