Nenhum homem aceitaria ser apenas uma peça no jogo de outra pessoa, muito menos suportaria que a esposa amasse outro homem.
Susana tinha chegado cedo ao Hotel Luar e testemunhado cada troca de olhares cúmplices entre Margarida e Augusto durante o jantar, enquanto Vicente era praticamente ignorado ao lado deles. Aquilo a deixava sufocada de indignação.
Vicente sempre teve uma presença marcante, uma beleza singular que se destacava mesmo quando ele exibia um semblante fechado. Um homem como ele merecia ser amado por inteiro. Como Margarida ousava tocá-lo, estando com o coração dividido entre dois homens?
Pela primeira vez, as palavras de Susana conseguiram despertar uma reação nos olhos escuros de Vicente, evidenciando um brilho diferente, carregado de algo que ela não soube decifrar de imediato.
Justo quando Susana começou a acreditar que ele realmente estava considerando seus argumentos, Vicente abriu um sorriso de puro desprezo e finalmente falou:
— Pelo que estou vendo, foi o Augusto que te mandou vir atrás de mim hoje, não foi?
— O quê... Como assim? — Susana gaguejou, forçando-se a parecer confusa.
O sorriso de escárnio já se desenhava no rosto de Vicente.
— Essas suas ideias sobre a Margarida amar apenas o Augusto vieram direto da boca dele, não é? Toda essa teoria de que ela só está comigo para provocar ciúme nele, foi ele quem te ensinou para tentar mexer comigo?
Ele fez uma pausa antes de continuar, com uma voz carregada de ironia:
— Parece que, quando pedi para ele descobrir o motivo de Margarida ter aceitado se casar comigo, ele já desvendou toda a verdade.
Vicente encarou Susana e, em um tom surpreendentemente calmo, completou:
— Mas agora que ele sabe que não foi a Margarida quem quis esse casamento e, sim, eu, que armei cada detalhe para conquistá-la, ele deveria entender que não me incomoda se ela me usa ou não. Só de ela me escolher já é suficiente para mim.
Os olhos de Vicente ficaram ainda mais frios quando ele concluiu:
— Assim que eu desatar todos os nós desse passado, a família Neves vai pagar por cada crime cometido. E você, Susana...
Vicente fez uma pausa carregada de intenção, antes de completar, num tom baixo e controlado:
— Eu vou fazer você responder por toda humilhação que a Marga sofreu naquele tempo.
Cada palavra era dita devagar, com absoluta firmeza. O tom não soava raivoso, mas provocado, era suficiente para arrepiar qualquer um.
Susana arregalou os olhos sob o peso do medo, sentindo um frio se espalhar em seu peito. Tentou dizer algo, mas nenhuma palavra conseguiu sair de sua boca.

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