— Vicente, queria te dizer uma coisa... — Susana deixou sua voz baixar, carregada de doçura venenosa. — Nesse tempo em que estivemos longe, parece que você ficou ainda mais irresistível.
Aproximando-se, ela deixou os olhos brilharem de desejo, suas unhas vermelhas quase tocando a gravata dele, como se cada gesto fosse calculado para provocar ao máximo. Susana não precisava fingir, porque aquele Vicente, agora mais maduro e poderoso, mexia realmente com ela. Só que sua intenção era conquistar, sem nunca demonstrar fraqueza.
— Esse terno hoje, essa gravata... Só de olhar para você, já sinto um calor tomar conta de mim inteiro. — Ela sorriu de canto, tentando diminuir a distância entre eles. — Vicente, consegue perceber o quanto estou pegando fogo aqui dentro?
O silêncio que se instalou foi cortante. Vicente lançou um olhar frio para ela. O rosto dele permaneceu impassível, nenhum vestígio de interesse, apenas uma dureza que parecia atravessar Susana por inteiro.
— Nojenta.
A palavra veio num sussurro cruel, seca, sem qualquer piedade.
Por um momento, Susana ficou paralisada, o impacto daquela palavra quase estampado em seu rosto. Respirou fundo, lutando para reconstruir um sorriso sedutor, embora estivesse longe de convencê-lo.
— Vicente, fiquei sabendo que você se casou desde que voltei, mas isso não me incomoda nem um pouco. — Disse ela, esforçando-se para manter o tom leve.
Se Vicente a desprezava por conhecer seu estado civil e ainda assim tentar se aproximar, ele podia ficar tranquilo, porque para Susana aquilo não era nenhum obstáculo.
Na visão dela, moralidade já não tinha o mesmo valor que antes. A família Neves tinha crescido justamente porque Marina nunca se deixou prender por questões éticas.
Desde pequena, Susana aprendia que dinheiro e poder falavam mais alto do que qualquer princípio. Por isso, quando o objetivo era chegar no topo e conquistar o que quase ninguém conseguia, o fato dele ter esposa era só um detalhe. Ainda mais se essa esposa fosse, na prática, apenas uma enteada sem prestígio, alguém nem de longe reconhecida pela família Carvalho.
A resposta de Vicente cortou como lâmina. Susana travou de vez, incapaz de forçar qualquer expressão.
Ela sempre desprezou Margarida, mas agora Vicente jogava na sua cara que ela, Susana, é que não estava à altura?
Aquelas palavras atingiram direto o centro de tudo o que Susana mais valorizava, como sua origem, sua beleza e seu status, que foram trabalhados por anos exatamente para aquele homem.
Com a voz tensa, dentes cerrados, ela rebateu:
— Vicente, precisa mesmo me provocar desse jeito? Todo mundo sabe que você e Margarida não são um casal de verdade. Ela só está pagando um favor antigo, mantendo vocês juntos. Mas quem ela sempre amou de verdade é o Augusto. Casar com você foi só para fazer ciúme nele! Um homem tão nobre e orgulhoso como você, está disposto a servir de fantoche numa briguinha de casal?

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