Isadora olhou para a tela e não atendeu.
O aparelho continuou vibrando por mais de dez segundos, até a chamada cair.
E logo começou a vibrar de novo. Ela esperou a ligação quase cair para depois arrastar o dedo e atender, bem devagar.
Botou o celular no ouvido e não falou nada.
Do outro lado da linha, também não saiu som de imediato.
Só se ouvia uma respiração leve pelo telefone. Era uma respiração calma e devagar, mas que passava uma pressão invisível.
— Motivo. — A voz de Otávio finalmente apareceu, grave e sem mostrar emoção.
— Helena me trancou. — Isadora falou baixinho, botando a quantia exata de magoa na voz. — Foi porque eu e a Diana brigamos. Ela disse que vai chamar uma professora de etiqueta para me treinar amanhã. Até lá, não posso sair do quarto.
Ficou um silêncio na linha por uns segundos.
— Que briga? — Otávio perguntou.
— Ela veio me dar o presente de matrícula e a gente... acabou se estranhando. — Isadora disfarçou a parte principal e foi para os lados mais leves. — Helena ficou muito brava, disse que eu não tenho modos.
— A Diana foi te procurar? — O tom de Otávio esfriou.
— Foi. — Isadora deu uma pausa e falou ainda mais baixo: — Sr. Otávio, eu realmente não posso ir, trancaram a porta por fora, não tenho como sair.
Outro silêncio.
Dessa vez foi mais demorado, ao ponto de Isadora achar que a ligação tinha caído.
Ela até afastou o celular e deu uma olhada para confirmar se ainda estava na chamada.
— Isadora Viana — Otávio falou de novo, agora num claro tom de aviso —, não venha com esse tipo de joguinho pro meu lado.
— Eu não estou... — Isadora sacou o perigo na voz de Otávio. — Se não acredita, liga para Helena para perguntar... Ou pergunte para qualquer funcionária aqui. Fui trancada mesmo.
Dava para ouvir no telefone o barulhinho de um isqueiro sendo aceso, seguido de uma baforada devagar.
Otávio estava fumando.
— Endereço. — Ele falou.

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