Esse som...
Otávio travou o corpo.
Levantou a cabeça de uma vez e se guiou pela luz. Viu o rosto.
Cílios extensos, nariz fino, boca torta, em um sono sem qualquer guarda.
Não era nenhuma daquelas moças de ocasião.
Era Isadora.
A respiração de Otávio embaralhou por um momento e ele deu um pulo para trás.
Na cama, Isadora seguiu deitada.
A blusa permaneceu aberta e a mordida dele estava no pescoço.
Otávio fechou os olhos com força, virou e foi para o banheiro.
Com a falta do peso de supetão, Isadora ouviu a puxada do ar e os passos de lado.
A porta do banheiro bateu de volta e a água rodou.
Isadora abriu o olho com vagareza e passou a mão na garganta.
A dor era pouca, mas marcava.
Ela riu calada, rolou o corpo e juntou os olhos de novo.
A água fria caía, mas não desmanchava as pernas compridas e a pele clara do ombro que estavam na cabeça de Otávio. Ele ficou em pé no banheiro até a pele gelar e, só então, desligou a torneira.
Secou-se e, em vez de voltar, caminhou para o escritório.
Parou na mesa, riscou um cigarro, não puxou, e esperou que o fogo engolisse o papel no meio dos dedos.
Com a fumaça subindo, lembrou do toque entre os lábios e do corpo ardendo nas mãos dele.
Merda.
Quem porra colocou a garota aqui.
-
Ao raiar, o sol despontou.
Isadora abriu os olhos e mirou o teto até lembrar onde estava.
Jogou o corpo para cima. A camisa caiu e ela sentiu a garganta. Ainda existia a dor.
Virou para o espelho do lado e o vermelho saltou.
O lábio dela abriu mais um tanto.
Desceu para o chão, abriu a porta do guarda-roupa.

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