João Passos chegou ao bar tranquilo pouco antes da meia-noite, carregando um presente nas mãos.
Um grupo de rapazes do colégio Lumiar, conhecidos por ignorarem regras e bons costumes, tocava com violão e outros instrumentos uma versão eletrônica e animada do “Parabéns pra Você”.
Aos cinquenta e oito anos, depois de uma vida pautada pela disciplina, o Prefeito João mal conteve o impulso de exclamar: “Que pouca vergonha é essa?”
Quando viu, recostadas no encosto do sofá, as fardas dos alunos do terceiro ano do Cidade H, e depois reconheceu Erick Rocha e Miguel Peixoto, ficou ainda mais surpreso.
Como era possível que bons alunos do Cidade H estivessem se misturando com esse bando de encrenqueiros do Lumiar?
O olhar de João Passos passeou pelo ambiente.
Zoé Santos estava de mãos nos bolsos, cabeça inclinada levemente, expressão indiferente, postura relaxada, com as pernas dobradas enquanto permanecia em pé.
De repente, João Passos se lembrou.
Certa vez, agentes da Interpol e mercenários foragidos, que costumavam ser rivais ferrenhos, se abraçaram como velhos amigos e brindaram juntos na presença de Zoé Santos.
Naquela ocasião, ela estava sentada no capô de um jipe, dedos longos envolvendo uma lata gelada de refrigerante. Sua frieza e indiferença contrastavam com uma ousadia impressionante.
Há pessoas cuja simples presença, sentadas ou em pé, emana uma calma tão poderosa que todos ao redor se sentem naturalmente submetidos.
Kauê foi o primeiro a avistar João Passos e avisou Bento Passos.
Logo, correu para recebê-lo com um sorriso amplo:
— Tio João, o senhor por aqui?
Mesmo quase sexagenário, João Passos mantinha a postura ereta e imponente de quem já foi policial.
Agora, no cargo de prefeito, sua autoridade era tamanha que os jovens presentes ficaram mais tensos do que diante de um diretor de escola.
Todos se apressaram em cumprimentá-lo:
— Tio João.
João Passos acenou levemente com a cabeça para o grupo.
Erick Rocha e Miguel Peixoto trocaram olhares apreensivos.
Lembraram do momento em que a mãe de Fernando Duarte arrastou o filho embora há pouco.
Os dois ficaram tensos de imediato.
Será que tio João também não gostava da Zoé Santos, que veio do interior, e queria levar Bento Passos embora?
A mãe de Fernando Duarte conseguia porque ele era obediente.
Já Bento Passos, com o pai, era praticamente um rebelde.
Nunca foram próximos, todo mundo em Cidade R sabia disso.
Erick Rocha e Miguel Peixoto observavam a cena, atônitos. Demoraram alguns segundos para assimilar.
Tio João tinha vindo para comemorar o aniversário de Zoé Santos.
Mas não diziam que Zoé Santos crescera numa Aldeia N bem pobre?
Como ela conhecia alguém tão importante quanto o tio João?
E a familiaridade entre eles deixava claro que se conheciam há muitos anos.
Henrique Farias, com seu semblante sempre superior, mal reagiu, apenas arqueou as sobrancelhas discretamente.
Sentado ao lado, cruzou as pernas elegantemente sob a calça cara, girando distraidamente a taça entre os dedos longos.
Pedro Soares, por sua vez, deixou transparecer uma nuance de surpresa no olhar.
Não era apenas pela relação entre Zoé Santos e João Passos.
O que o surpreendia verdadeiramente era a atitude de João Passos diante de Zoé Santos, marcada por um respeito silencioso e sutil.
A trajetória de João Passos era diferente dos outros prefeitos de Cidade R.
Enquanto os outros ascenderam por bons índices administrativos e conexões políticas, ele...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Zoé Santos:A Fênix de Cidade R
Tenham mais respeito com os leitores...
Quando o autor vai atualizar os cap?em outro app já tá no 319...