Pashir
Eu não imaginava que a mãe da Maisha fosse daquele jeito.
Na verdade, eu nunca tinha parado para pensar na família dela. Sempre vi Maisha como alguém independente, forte, que resolvia tudo sozinha. Mas bastaram poucos minutos naquela conversa para eu entender que aquela mulher não era fraca, nem ingênua — e muito menos alguém que aceitaria decisões tomadas por cima dela.
Quando Miriã disse que precisaríamos conversar antes de qualquer coisa, confesso que pensei em ir embora. Não por medo, mas porque eu já sentia que aquela conversa não seria simples. E quando ela respondeu à Khandra com firmeza, sem elevar a voz, apenas impondo respeito, eu tive certeza de que não estava lidando com uma mulher qualquer.
Sentamos em uma área mais reservada. O ambiente era silencioso, mas a tensão era pesada.
— Pashir, começou Miriã, olhando diretamente para mim.
— Eu vou ser direta, porque não gosto de rodeios.
Mantive a postura, atento.
— Não sei como você pretende conviver com a minha filha durante essa gravidez, continuou.
— Mas, se houver qualquer dificuldade, o ideal é que você venha até aqui apenas quando houver exames ou consultas que realmente exijam sua presença.
Ela cruzou as mãos sobre a mesa.
— Não vejo necessidade da sua presença constante.
— Se quiser ajudar financeiramente, pode transferir ou enviar alguém de confiança.
— A gravidez não exige vigilância diária.
Respirei fundo, escutando.
— Entendo que você queira acompanhar o pré-natal, os exames, cada etapa, ela prosseguiu.
— E entendo também que você queira um exame de DNA.
Ela sustentou meu olhar.
— Faça.
— Minha filha não é uma mulher leviana. Se ela disse que o filho é seu, é porque é.
— Mas o exame evita dúvidas, comentários e conflitos futuros.
Foi então que Khandra se mexeu na cadeira antes de falar, sem disfarçar a tensão:
— Com as amizades que Maisha tinha, qualquer coisa precisa ser confirmada.
— Não me surpreenderia se tentassem algo errado.
Eu senti o clima pesar imediatamente.
Miriã sorriu de lado. Um sorriso contido, carregado de ironia.
— Tanta raiva assim, Khandra?
— Ou é medo de perder o homem que está ao seu lado?
Khandra ficou rígida.
— Falsificar um exame não é simples, Miriã continuou, firme.
— E nós não conhecemos ninguém em laboratório algum.
— Você pode fazer o exame onde quiser. Aqui, fora do país, onde achar melhor.
Ela respirou fundo antes de continuar:
— Se fosse, teria escolhido outra mulher.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
— Essa gravidez é responsabilidade de quem participou dela, Miriã continuou.
— Ninguém foi obrigado a nada.
Ela então olhou para mim novamente.
— Você pode escolher ser pai ou não.
— A maternidade não é escolha. Ela acontece.
Respirei fundo antes de falar:
— Dona Miriã, eu não tenho dúvidas de que o filho é meu.
— Quero acompanhar a gravidez, os exames, tudo o que for necessário.
Olhei rapidamente para Khandra antes de completar:
— Não estou fugindo da minha responsabilidade.
— Vou fazer o exame de DNA porque é justo, mas independentemente disso, eu vou cuidar da Maisha e do bebê.
Miriã me encarou por alguns segundos longos, avaliando cada palavra.
— Ótimo, disse ela por fim.
— Então estamos entendidos.

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