As sombras de Daniel iluminavam-se quando ele estava com ela a sós. Não regressaram a casa; de todas as maneiras, as crianças voltariam a ficar com Susan. Todos os anos que ele tinha passado sozinho depois de Emily morrer pareciam tão longínquos agora, como se a sua vida tivesse um buraco onde o tempo se tivesse detido e a escuridão da tristeza cobrisse tudo. Deanna enchia tudo com a sua luz agora.
O seu escritório, alguma vez, foi também o seu esconderijo, onde a sua pena podia sair e avassalá-lo sem que ninguém o visse. A sua dimensão abarcava todo o andar superior do edifício e estava equipado por completo, até com um pequeno quarto que agora estava desmantelado e guardava caixas velhas.
«O teu escritório parece um apartamento...»
«Numa época foi.»
Estavam recostados no amplo sofá que dava para as janelas mais extensas. As luzes da cidade eram a única iluminação que entrava e envolvia as suas formas nuas, apenas cobertas com uma manta.
«Trouxeste mulheres para aqui?»
«Alguma vez trouxe alguma...», mas não lhe ia dizer que tinha sido uma mulher contratada para o acompanhar.
«Já vejo...»
«Depois de Emily morrer, este lugar converteu-se no meu esconderijo. Havia dias em que não podia regressar a casa e estar com as crianças...»
«Eu lamento...»
Na verdade, lamentava; doía-lhe algo no qual não tinha participado, algo que não era seu. Mas doía-lhe pelas crianças que perderam a sua mãe e doía-lhe por ele. Ela conheceu-o com os olhos sumidos na tristeza e o rosto inexpressivo, e soube que na sua alma ele carregava um peso doloroso.
«Perdoa-me pela forma como me comporto contigo... Eu tento...»
«Eu sei... Confia em mim. Nunca farei nada pelas tuas costas.»
«Eu confio em ti, mas não neles. Reed, "Leonard", não tem vergonha nem respeito. Envolve-se com mulheres que depois descarta como se fossem móveis. Não lhe importam nem a sua esposa nem as suas filhas, é detestável.»
«Eu não o sabia. Mas notei as suas intenções quando começou a falar-me. Eu tenho a minha história também, sabes?»
«Sim, mas não quero sabê-la...»
«Não gostaria de ter que chegar a ocultar-te nada por medo das tuas reações... Não te peço que mudes quem tu és.»
«Tens medo de mim?»
«Não, claro que não! Mas hoje este lugar estava cheio de pessoas que te conhecem e trabalham contigo, e embora renegues disso, sabes tal como eu que os seus comentários te afetarão mais tarde ou mais cedo.»
«Todos sabem como eu sou... Desde quando é que te preocupas com isso?»
«Desde que casei contigo. Sinto que estou a atuar cada vez que assistimos a estes eventos. Tu conheces as minhas raízes... Isto é tão diferente de onde cresci», confessou Deanna, deixando que a sua vulnerabilidade aflorasse.
«Não tens de ser mais ninguém a não ser tu mesma, pelo menos não comigo. Estou aqui para cuidar de ti», disse Daniel com suavidade, aproximando-se um pouco mais. «E não permitirei que ninguém tem falte ao respeito.»
«Todo um cavalheiro...»
«Estás a troçar», disse ele, arqueando uma sobrancelha.
«Troçar do meu aposto e cavalheiresco esposo? Jamais», disse ela em tom brincalhão, aproximando-se para lhe dar um beijo suave nos lábios.
A noite desvaneceu-se num sussurro de palavras, risos suaves e carícias. Quando deram por isso, as primeiras luzes alaranjadas do amanhecer começavam a coar-se pelas janelas. Com Deanna, tudo parecia mais fácil, como se o peso do mundo desaparecesse. Sem se dar conta, Daniel começou a falar-lhe de quase toda a sua vida, coisas que nunca tinha partilhado com ninguém.
Saíram do edifício com cautela, escapando-se dos empregados de manutenção de fim de semana que estavam prestes a chegar, de mãos dadas. Caminharam até um café, e as poucas pessoas que se cruzavam na rua não podiam evitar olhá-los: ela com o seu vestido azul e o cabelo solto, ele de fato, ambos com o brilho de uma noite que parecia saída de outra dimensão.

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