Nívea parou na frente da janela da mansão e observou as luzes traseiras do carro de Wilson desaparecerem no fim da rua.
Ela virou a cabeça e viu Luca, de 5 anos, sentado no tapete, montando com concentração um modelo de corpo humano médico. Nívea não ficava a sós com Luca há muito tempo e, ao ver as bochechas dele, sentiu que a criança parecia ter crescido um pouco mais.
E não sabia se ele ficaria triste caso ela realmente não estivesse mais neste mundo...
— Luca, você gosta muito de medicina?
Nívea caminhou em sua direção e se sentou com cuidado ao seu lado, o seu olhar gentil e apegado.
— Mamãe, onde fica o pâncreas? — Luca perguntou sem levantar a cabeça.
Nívea ficou atordoada por um momento e se aproximou para olhar: — A mamãe não tem muita certeza, vamos perguntar ao papai quando ele voltar, ok?
Luca fez beicinho: — A tia achou em um segundo. Ela falou que o pâncreas fica atrás do estômago, parecendo um peixinho.
O orgulho indisfarçável no tom de voz da criança apertou o coração de Nívea. Ela pegou uma peça do quebra-cabeça e disse baixinho:
— Luca, você é muito inteligente, então... a mamãe te ajuda a montar outras partes, que tal? Aqui fica o coração... certo?
— Esse é o ventrículo esquerdo — corrigiu Luca, tirando a peça das mãos da mãe e colocando-a habilmente no lugar certo com a sua mãozinha: — A tia falou que o ventrículo esquerdo precisa enviar sangue para todo o corpo, é o ventrículo mais forte.
Nívea observou o rosto infantil, mas focado, do seu filho, e emoções complexas surgiram no seu coração.
Luca era esperto e tinha um interesse incrível pela medicina. Talvez, quando crescesse, também se tornasse um excelente médico, porém... não sabia se ainda conseguiria ver esse dia.
— Você está com fome? A mamãe vai preparar algo para você comer. — Nívea respirou fundo, se levantou e disse.
Houve um silêncio no outro lado da linha, e então mudou para a voz de uma mulher, era Vânia: — Nívea, na segunda prateleira da geladeira tem as almôndegas semi-prontas que eu preparei com antecedência, é só esquentar. Desse jeito é mais prático.
— Certo. — Nívea respondeu de forma breve.
— E o Luca, como ele está? — Wilson perguntou de novo.
— Montando o quebra-cabeça do corpo humano.
O tom de Wilson se suavizou: — Ele gosta muito disso, Vânia comprou para ele. Então, fico por aqui, me ligue se precisar de algo.
O telefone foi desligado.
Nívea parou na cozinha e olhou para as comidas semi-prontas que Vânia tinha preparado na geladeira. Além disso, não muito longe, viu a imagem do seu filho no tapete concentrado no quebra-cabeça. De repente, ela sentiu um zumbido na cabeça. O mundo ao seu redor pareceu distante e turvo, como se ela fosse uma espectadora alheia àquela vida.

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