Ada deslizou os dedos pelas lombadas poeirentas.
Na prateleira mais alta, seus olhos pararam em um volume robusto de *O Conde de Monte Cristo*.
Assim que ela puxou o livro para fora...
Algo escondido atrás dele chamou a sua atenção.
Era uma caixinha de madeira, pequena e de acabamento rústico, mas intrigante.
Com a curiosidade atiçada, Ada esticou a mão e pegou o objeto.
Ao abrir a tampa, encontrou um smartphone antigo repousando sobre um forro escuro.
A memória a atingiu como um estalo.
Aquele era o celular que Zaqueu havia usado como garantia de chantagem.
O aparelho de Armando, o cofre digital que guardava todas as transações sombrias que ele fizera com Carolina, além de segredos que apodreciam nas sombras.
A princípio, Ada não via motivo algum para ligar aquele aparelho.
Porém, a noite se arrastava fria, e o silêncio da casa parecia convidar velhos fantasmas para uma conversa.
Havia uma pergunta que insistia em martelar no fundo da sua alma.
Como diabos Kenji havia sido concebido?
Kenji era fruto de fertilização in vitro. Isso era um fato médico.
Mas como Carolina havia conseguido invadir seu corpo para roubar o material genético sem que ela suspeitasse de nada?
Ada tinha suas suspeitas, peças de um quebra-cabeça manchado de sangue.
Mas ela precisava ter certeza.
Cedendo ao impulso, conectou o aparelho decrépito a um carregador.
A tela acendeu em poucos minutos.
Quando o brilho da tela de bloqueio iluminou o rosto de Ada, seu coração falhou uma batida.
O ar de repente pareceu denso, como se o passado se erguesse do abismo para sufocá-la.
Uma onda de choque e confusão paralisou seus sentidos.
Era Carolina.
Por que diabos a foto era de Carolina?
A imagem de fundo do aparelho exibia uma versão jovem da mulher, provavelmente nos tempos de escola.
Na foto, Carolina estava em pé, no meio de uma quadra poliesportiva, exibindo um sorriso inocente e radiante sob o sol.
Encarar aquele sorriso fez o estômago de Ada revirar, tomado por um pressentimento nefasto.
Ela quis cavar, quis arrancar a verdade pela raiz.
Mas a foice da morte levou todos eles primeiro. Zaqueu estava morto. Carolina se foi.
Armando já havia perecido nas águas profundas muito tempo atrás.
Diante da pilha de cadáveres, Ada sentiu que a obsessão por vingança não fazia mais sentido.
Por isso, ela lacrou aquele maldito telefone no fundo da caixa.
Mas hoje, com o espírito forjado por tantas batalhas, aqueles fantasmas já não possuíam o poder de aterrorizá-la.
Os horrores do passado eram apenas ecos distantes; lâminas cegas que jamais a cortariam novamente.
Ela buscava apenas uma única resposta técnica: descobrir a logística infernal que Carolina havia montado para criar Sílvio e Kenji.
Ada continuou encarando a tela inicial, absorta.
Ter a foto de Carolina como tela de bloqueio do celular pessoal de Armando era, no mínimo, doentio.
Mas, quando Ada finalmente inseriu uma senha aleatória que quebrou a segurança frágil do aparelho, ela descobriu que a loucura real era muito mais grotesca do que imaginava.
O primeiro aplicativo que ela abriu foi a galeria de imagens.
Estava infestada de fotos de Carolina.
A vasta maioria parecia ter sido tirada escondida, à distância.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Surpresa! O Bonitão que Eu Mantinha era O Príncipe Herdeiro!
Que livro maravilhoso, estou adorando e ansiosa por mais capitulos. Parabéns!...
Que livro maravilhoso....Obrigada equipe...
Quando vai atualizar?...