Diante da longa fila, Luana sentou-se no banco gélido para esperar.
Costas com costas com ela, havia um jovem casal. Pareciam estar ali para um aborto. A voz da mulher tremia de pavor:
— Vai doer muito. E se não fizermos isso?
O homem a coagia com falsa doçura:
— Somos jovens, precisamos focar na carreira. Além disso, ainda é muito cedo. Você vai sofrer apenas a dor de um procedimento rápido, a dor do parto seria infinitamente pior.
Que lixo humano.
Luana sorriu com escárnio em seu íntimo.
As cinzas de seu passado se agitaram. Há cinco anos, grávida de Sílvio, ouviu o pedido de divórcio de Sebastião. Naquele dia, ela sentiu que perdeu o chão.
Quando deixou Porto Fundo, ela jurou a si mesma: nunca mais amaria Sebastião em toda a sua vida.
O destino, porém, era sádico. Ela jamais imaginaria que Sílvio adoeceria, nem que a cura exigiria que ela e Sebastião gerassem outro filho.
— Luana! Quem é Luana?
A voz esganiçada da enfermeira ecoou no corredor, segurando a ficha.
— Sou eu.
Luana se levantou e caminhou até a enfermeira, que rapidamente instruiu:
— Seu agendamento foi online. Não precisa esperar. Venha comigo.
A enfermeira a guiou até o interior da sala de injeções.
A profissional que aplicaria a dose usava máscara, com os olhos grandes e brilhantes avaliando-a, sinalizando para que se preparasse.
Luana sentou-se no banco e desfez o zíper da calça jeans.
Enquanto a agulha perfurava sua pele, a enfermeira alertou:
— Sra. Lemos, precisará de um conforto térmico na área ao chegar em casa. Sua imunidade está muito baixa. Não posso dizer que essa injeção não trará fortes efeitos colaterais.
Após o aviso, um suspiro leve escapou da máscara da enfermeira.
Para as mulheres com dificuldade de engravidar, cada aplicação daquela medicação causava uma pena profunda na profissional.
— Entendi.
Três agulhadas consecutivas perfuraram o corpo de Luana.
Ao puxar a calça e tentar levantar, o mundo girou violentamente. A enfermeira, notando sua palidez translúcida, amparou-a às pressas:
— Sra. Lemos... essa dose destrói uma pessoa comum. Descanse um pouco antes de ir.
— Hm.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Sr. Sebastião, Tarde Demais
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