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Senhor Ramos, ele não é seu filho! romance Capítulo 649

— Presidente Carneiro, a minha alçada de atuação limita-se a ser a gestora exclusiva das operações em Cidade S. É inadmissível que eu possua as credenciais exigidas para emitir juízo de valor sobre as diretrizes macroeconômicas do projeto na região Sudeste.

Sabrina Batista abaixou sutilmente a cabeça, escolhendo manter os pés atrelados estritamente à formalidade de sua posição na empresa.

Ricardo Carneiro sibilou pela boca, estalando a língua com irritação flagrante.

— Se a minha decisão final é um rotundo não, por qual motivo insiste em colocar uma faca no pescoço dela? Para mim, já basta! Este conclave ridículo termina agora. Interrompam o sinal do vídeo.

Seu globo ocular deslizou pelo canto em um ultimato direcionado ao seu assistente.

No entanto, o pobre subalterno tremia e não nutria uma única gota de coragem em suas veias para acatar a ordem de derrubar a transmissão de figurões da matriz.

Ricardo Carneiro suspirou de frustração e levantou-se da poltrona, margeou a mesa de madeira e com os próprios dedos, num movimento seco, abortou a conexão da sala com o link global.

Os traços austeros e o cenho marcado de Felipe Carneiro desapareceram em um borrão cinzento no gigantesco monitor.

— Senhor Carneiro. — Sabrina Batista até ameaçou esticar a mão para detê-lo, mas o ato já estava consumado e imutável.

— Finalizado, esvaziem a sala. Senhores do departamento jurídico corporativo: caso recebam qualquer ordem compulsória do comitê-executivo da matriz exigindo a elaboração e revisão do contrato de subordinação da Família Couto, vocês não farão.

Com um amplo e impetuoso gesto de braço, Ricardo Carneiro estraçalhou a rede de burocracias com a eficiência de uma lâmina incandescente. Lançou as coordenadas de rebelião e logo partiu acompanhado dos passos silenciados de Sabrina Batista, conduzindo-a ao longo do labirinto de escritórios até alcançar a sua torre privada.

Sabrina Batista seguiu a sombra do chefe em direção ao seu refúgio impenetrável.

— Ontem, no cair da tarde, você procurou o Presidente Carneiro, não é verdade?

— Exato. Acionei a sua linha particular, jorrei mil argumentos ao longo de uma hora infinita, e o teimoso continuava cravando que o futuro da Pipefy dependia da associação mercantil com a maldita Família Couto. Houve a fissura das nossas ideias, e o que surgiu no campo de batalha foi a invocação da plenária de hoje de manhã. Fui perfeitamente iluminado sobre o cenário... aquele lobo da estepe que chamo de pai, montou este tribunal para submeter minha voz à vergonha do voto democrático e esmagar a minha recusa de uma vez por todas.

Ricardo Carneiro despejou as costas e os membros na imensidão acolhedora do sofá estofado. Em um tique de insatisfação, esgarçou a gravata prateada do colarinho e expôs, em cada milímetro de seu semblante, a pura essência da rebeldia e do escárnio contra os engravatados conservadores.

— E pouco me importo com a punição divina ou corporativa! Não assinarei em baixo daquela sujeira.

— Mas a sua veemente repulsa pela parceria deve-se, restritivamente, à convicção de que os Couto exalam uma podridão incontrolável ou os seus instintos de boicote foram, no fundo, acionados por querer me proteger? — inquiriu Sabrina Batista em tom aveludado, mas analítico.

— Os dois fatores compõem o quadro. — respondeu Ricardo Carneiro, sem pestanejar ou ceder à menor hesitação. Encarou a imensidão dos olhos da arquiteta por infindáveis segundos antes de dar o tiro final de sua honestidade: — Que seja! Eu ergo as mãos e admito que a porção destinada a resguardar a sua integridade pesou de forma avassaladora na minha caneta.

Na selva predatória dos oligopólios, a pureza das virtudes humanas era apreciada, sim; mas o cheiro magnético das margens de lucro era muito superior.

O que o executivo grisalho proferira há pouco na sala ecoava como um decreto de pragmatismo letal: ainda que a Família Couto carregasse a aura da escória rastejante, sob o sol ou sob a chuva não reuniriam atrevimento o suficiente para maquinar pequenas rasteiras diante da magnânima Pipefy.

Sabrina Batista deixou que um suspiro desamparado escorresse de sua garganta.

— Tamanho sacrifício diplomático não tem propósito lógico. Tratando-se de uma parceria de trâmites cristalinos e regulares, as garras da Família Couto não encontrariam formas de me criar amarras. Porém, a sua atitude destrutiva de agora acabará evocando a fúria apocalíptica do Presidente Carneiro e de seu séquito.

— São dinossauros do século passado. Se a acidez subir e quiserem estourar de raiva, que estoirem, meu ego continuará intacto.

Ricardo Carneiro vivia na periferia das consequências.

— Recolha-se à sua mesa e lide com suas plantas baixas. O epicentro desse terremoto eu intercepto com o meu nome.

Abaixo da sua camada mundana de simpatia flexível, Ricardo Carneiro abrigava a teimosia das rochas brutas; quando a sua determinação coagulava, nenhuma oratória seria capaz de arremessá-la ao abismo.

A quilômetros distantes, sob um relógio invisível idêntico ao dela, Henrique Ramos lançava olhares intermitentes e magnéticos para o campo luminoso da tela tátil, lendo e relendo o minúsculo indicativo rastejante do sistema que acusava intermitentemente a pulsação letal das palavras: 'Digitando...'.

Esperou longos batimentos cardíacos; mas, subitamente, as palavras e os pontos virtuais feneceram sob o nada absoluto.

— Senhor, devo avisar que as portas foram contornadas pela senhora sua mãe e a honorável senhorita.

Ainda da calçada gelada pelo pátio de fora, de além das espessas placas de vidro polido da residência, os olhos argutos de Julia fitaram a figura autoritária e imponente de Daniela Vieira varrendo o terreno verde. Junto de suas vestes pesadas de matriarca, enfileirada e com os olhos espumando avidez, acompanhava sua descendente, Mariana Ramos.

Em um sobressalto protocolar de obediência, a governanta Julia trotou em agonia até as portas pesadas do vestíbulo frontal.

Henrique Ramos devolveu o minúsculo aparelho comunicador às reentrâncias fúnebres de seus bolsos fundos. A musculatura densa das suas coxas ergueu o corpo colossal num estalo; antes de processar qualquer movimento defensivo, o assobio agudo do ar cortado foi escutado.

Um borrão feminino reluzente rasgou como um projétil através dos adornos de gesso do átrio principal do hall.

A mão maciça e firme do patriarca do local bloqueou abruptamente aquele meteoro.

Com olhos cinzentos faiscantes de puro aviso ditatorial e repreensão social, fuzilou:

— Marche ao banheiro de visitas e proceda imediatamente à esterilização minuciosa de suas mãos. Tolero nenhum traço de precipitação pueril ou desordem nestes domínios.

— Por que há uma barricada de ritos excessivos para atravessar o seu inferno de regras?!

Mariana Ramos viu o carrinho de bebê, mas antes de enxergar direito já foi puxada de volta por Henrique Ramos.

Do outro lado, Daniela Vieira já tinha ido ao banheiro lavar as mãos. Ela veio, empurrou Mariana Ramos e pegou a Lelê no colo.

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