Pouco depois, Luiz Moreira retornou após falar com Francisco Couto.
— Francisco Couto disse que, se o senhor estiver disposto a protegê-lo, ele não se importa que a Família Couto descubra sobre seu trabalho.
Henrique Ramos continuava sentado à mesa, sem mudar de expressão.
— Diga a ele que eu não costumo fechar negócios onde saio perdendo.
Se Francisco Couto queria proteção, teria que oferecer algo em troca.
Luiz Moreira foi repassar o recado e, quando voltou, trazia Francisco Couto consigo.
— Sr. Ramos, é uma honra entrar na Quinto Andar e lhe agradeço pela oportunidade de assumir o departamento de projetos.
Henrique Ramos, com as pernas cruzadas numa postura indolente, porém arrogante, o interrompeu:
— O Sr. Couto é modesto demais. A oportunidade foi conquistada por você mesmo.
Francisco Couto engasgou ao ouvir aquilo.
O comentário embutia a insinuação de que ele fora calculista o suficiente para ganhar a confiança de Luan Macedo.
— Sem rodeios — cortou Henrique Ramos, sem paciência para discursos.
— Se um dia o senhor precisar, eu estou disposto a testemunhar sobre tudo o que a Família Couto tem feito ao longo dos anos.
Sendo o filho biológico de Wesley Couto, um testemunho seu, voltando-se contra a própria família, teria altíssima credibilidade.
Ele se tornaria a força decisiva para derrubar Wesley Couto.
Uma onda de animação invadiu Luiz Moreira, mas Henrique Ramos manteve a mesma expressão gélida, sem demonstrar qualquer vestígio de satisfação.
— Isso não é uma oferta tentadora para mim, afinal, a queda da Família Couto não me diz respeito.
Henrique Ramos se levantou e bateu os dedos levemente na borda da mesa. O som abafado era o suficiente para oprimir o ambiente.
— Se a única serventia do Sr. Couto for essa, então ele está destinado a ser apenas mais um funcionário comum do departamento de projetos.
Ao concluir a frase, ele lançou um olhar para Luiz Moreira.
Compreendendo o sinal, Luiz Moreira se adiantou para dispensar a visita.
— Sr. Couto, por favor, pode retornar ao trabalho.
Francisco Couto já sabia que Henrique Ramos era um homem indecifrável.
Mas jamais imaginou que não conseguiria sequer arranhar a superfície de suas verdadeiras intenções.
Será que Henrique Ramos não queria destruir a Família Couto? E, além de ajudar a derrubar a própria família, que outra utilidade ele poderia ter?
Kiara havia comprado daqueles uma vez e dito o quanto eram deliciosos.
Na época, Kiara mencionou que a fila era enorme e que comprariam de novo quando houvesse uma oportunidade, mas essa chance nunca aparecera.
— senhor, o senhor chegou.
A voz de Julia ecoou do hall de entrada.
— Estes não são os doces que a jovem senhora disse que eram gostosos?
Henrique Ramos murmurou uma afirmação simples e perguntou:
— Onde ela está?
— Na sala de estar. Como choveu e não fez sol a tarde toda, não levamos o pequeno mestre para a varanda ensolarada. A menininha ficou chateada e fez manha a tarde inteira.
Enquanto Julia tagarelava, Henrique Ramos entrou na casa com os doces.
Seu corpo ainda exalava a umidade da chuva. Seus traços faciais profundos e marcantes, que antes exibiam uma frieza sombria, foram suavizando-se gradativamente conforme ele se aproximava.
Embora Lelê tivesse apenas pouco mais de dois meses, a menininha já era cheia de vontades. Acostumado a tomar banho de sol todas as tardes, um único dia sem seu ritual era motivo de insatisfação.
Mesmo de barriga cheia, recusava-se a dormir e não queria ficar no carrinho; só aceitava ficar no colo.

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