— A minha situação é diferente da sua.
Henrique Ramos pegou a própria taça e brindou com Fernando Moraes. — Sabrina Batista é a minha ex-mulher, nós compartilhamos a maior intimidade possível. Neste mundo não existe 'e se', o filho dela é meu.
— Quer dizer que você está apaixonado pela Sa... — começou Fernando Moraes.
— O problema principal é você. A mulher que escolheu a sua amostra pode muito bem ser feia, velha e pobre. O seu filho pode estar passando fome, herdando toda a sua genialidade médica, mas sem sequer ter a chance de ir para a escola...
Henrique Ramos pronunciou cada palavra lentamente, lançando uma nuvem sombria sobre o coração de Fernando Moraes.
A simples ideia de que, daqui a vinte anos, um garoto desordeiro de cabelo tingido, levemente parecido com ele, ou uma garota desleixada pudessem aparecer à sua frente chamando-o de 'papai'...
Fernando Moraes virou o copo de uma vez.
O forte e sufocante gosto de álcool desceu queimando pela garganta.
Ele levou um susto e encarou o copo. Não era água?
Será que tinha pego o errado?
Olhou para as dezenas de copos com líquidos transparentes sobre a mesa; já era impossível distinguir qual era água e qual era bebida alcoólica.
Ele lançou um olhar avaliativo para Henrique Ramos.
Henrique Ramos esvaziou a sua taça num gole só, franziu as sobrancelhas e deixou escapar um suspiro sibilante pelos lábios finos.
Pelo visto, também tinha bebido álcool puro.
Se Henrique Ramos tivesse tomado água, com certeza teria notado a diferença.
— Mais uma rodada. — Fernando Moraes pegou mais dois copos, tentando lembrar qual era a água e qual era a bebida, e os distribuiu para si mesmo e para Henrique Ramos.
— Ter você como pai seria um castigo para a criança.
A voz de Henrique Ramos era serena e sua dicção, clara, mas cada palavra era um golpe duro: — E se, por acaso, acabar com um padrasto e apanhar todos os dias...
Fernando engoliu em seco.
Atormentado por aquelas palavras, Fernando Moraes bebeu tudo de uma vez.
Henrique Ramos não respondeu.
— Seu orgulhoso, você não admite, mas há muito tempo sente algo pela Sabrina Batista, né? Na noite em que vocês se divorciaram, você me ligou de madrugada, falou um monte de abobrinhas e me atrapalhou na minha experiência com os fungos. Eles acabaram apodrecendo...
Foi só muito tempo depois que Fernando Moraes descobriu que aquela era a noite do divórcio de Henrique e Sabrina.
Os olhos de Henrique Ramos escureceram de repente. Ele se levantou, agarrou-o pelo colarinho e começou a arrastá-lo para fora.
— Você fala demais. Os fungos devem ter vomitado de tanto te ouvir, por isso apodreceram.
Fernando Moraes tropeçou, apoiando todo o peso de seu corpo em Henrique Ramos.
— Mentira! Meus fungos são muito mais adoráveis que você, eles não cheiram mal. Você está mudando de assunto. A Sabrina Batista jamais gostaria de um homem como você. Ela gosta de caras como o Ricardo Carneiro.
— Senão, ela não teria voltado a trabalhar tão cedo. O Ricardo Carneiro é tão boa-pinta quanto você, mas ele conversa bastante sem ferir os sentimentos dos outros, e não fica de cara amarrada o tempo todo igual a... Ai!
Henrique Ramos soltou-o abruptamente.
Fernando Moraes caiu de bunda no chão, esfregando o traseiro de dor.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ramos, ele não é seu filho!