— Fechado. Farei exatamente o que me pedir — concordou Ricardo Carneiro, prontamente. — Mas, se houver qualquer problema que você não consiga resolver, não se esqueça de me procurar. Além de sermos chefe e funcionária, nós ainda somos amigos.
Amigos.
Ao ouvir essa palavra, a primeira pessoa que veio à mente de Sabrina Batista foi Oceana Reis.
— Descanse e cuide bem de si. Lembre-se de trocar os curativos na hora certa e, se sentir qualquer mal-estar, vá ao hospital procurar o Doutor Moraes imediatamente.
Após dar essas breves instruções, ela desligou o telefone.
O quarto mergulhou novamente no silêncio.
Um ruído sutil vindo da porta a fez virar a cabeça; foi então que percebeu Henrique Ramos encostado na moldura da porta, segurando uma bandeja com comida.
Não se sabia há quanto tempo ele estava ali. Com as costas apoiadas no batente, seus traços marcantes emanavam uma aura sombria e contida, como se tentasse dominar uma raiva silenciosa.
— Eu já não disse que não iria comer?
Henrique Ramos havia escutado cada palavra daquela conversa.
Pelo leve timbre de voz que ecoava, dava para reconhecer que o homem do outro lado da linha era Ricardo Carneiro.
Desde as falas esganiçadas até o tom de seriedade que culminou com o 'É claro que eu escolho você' de Sabrina Batista.
Os olhos afiados como os de um falcão estreitaram-se levemente. Ele endireitou a postura, caminhou até o interior do quarto e depositou a refeição na mesa de cabeceira.
Sem dizer uma única palavra em resposta, virou as costas e saiu.
— Ei...
Sabrina Batista ainda tentou dizer algo, mas ele não lhe deu sequer a chance de abrir a boca.
Mas o que foi isso?
O aroma suave da comida recém-preparada espalhou-se pelo quarto; a comida ainda estava fumegando.
Já que o almoço estava ali, Sabrina Batista decidiu forçar a si mesma a comer pelo menos um pouco.
A comida de Julia tinha o mesmo sabor de antes, um sabor que lembrava casa; já fazia tanto tempo que não provava, que a saudade logo se fez notar.
Sem perceber, ela devorou mais da metade e até sentiu o estômago pesar um pouco.
Como Lelê continuava dormindo profundamente, ela recolheu a bandeja e a levou de volta para o andar de baixo.
Para sua surpresa, a comida posta à mesa parecia intocada, e Julia permanecia de pé ao lado, ostentando um rosto carregado de aflição.
Mas, hoje...
— Ele já é um homem feito, não uma criança que precise que fiquem convencendo ele a comer. — respondeu.
E, com essas palavras, Sabrina Batista subiu as escadas.
Julia engoliu o que estava prestes a dizer, soltou um longo suspiro e virou-se para a sala de jantar, preparando-se para recolher os pratos.
Contudo, ao dar meia-volta, deparou-se com Henrique Ramos encostado na soleira da porta que levava ao jardim, com o olhar perdido numa imensidão de sombras.
— Senhor Ramos, o senhor... Ué?
Antes mesmo que Julia pudesse concluir a frase, Henrique Ramos entrou na casa a passos largos, trocou os sapatos no saguão, pegou as chaves do carro e saiu sem olhar para trás.
Sabrina Batista mal havia se deitado ao lado de Lelê quando o ruído forte do motor rasgou o ar.
Caminhou até a janela e só teve tempo de vislumbrar a traseira do Maybach sumindo no horizonte a toda velocidade.
Uma pontada repentina oprimiu o seu peito, deixando-a tomada por uma incômoda sensação de vazio.
Naquela noite, Henrique Ramos não voltou para casa.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Senhor Ramos, ele não é seu filho!