O pequeno era corajoso. Embora tivesse se assustado no início, logo se acalmou. Mesmo estando em um ambiente desconhecido, não demonstrou medo; seus olhinhos negros giravam, curiosos, observando tudo ao redor.
O coração de Sabrina Batista continuava apertado. Na verdade, ela estava sem apetite e não tinha vontade de comer. Só fez aquilo para desviar o assunto.
Mas, para garantir que não faltasse leite para o Lelê, ela se forçou a comer o máximo que pôde.
Após o jantar, sem esperar pelo retorno de Henrique Ramos, ela levou Lelê de volta para o quarto para descansar.
Por volta das dez da noite, Lelê adormeceu.
Tantas coisas haviam acontecido durante o dia que a mente de Sabrina Batista estava uma verdadeira confusão. Ao deitar-se, ela entrou em um estado de torpor, quase como se estivesse sonhando.
Até que uma voz grave e familiar soou em seus ouvidos, fazendo-a despertar imediatamente.
— Se a senhora quiser ir, leve-a você mesma. Eu não tenho tempo...
O tom irritado e os passos de Henrique Ramos misturavam-se. Ele parou no topo da escada e abaixou bastante o volume da voz.
— Vou desligar. Se precisar de algo, procure o Luiz Moreira.
Fez-se silêncio no corredor por alguns segundos. Logo em seguida, os passos avançaram até a porta do quarto de Sabrina Batista e cessaram.
A maçaneta girou de leve, e Sabrina Batista sentou-se na cama num sobressalto.
Henrique Ramos empurrou a porta e entrou, encontrando o olhar de alerta de Sabrina Batista, que estava parcialmente sentada na cama.
A luz brilhante do luar iluminava seus longos cabelos soltos. O rostinho pálido feito porcelana exibia feições tão delicadas que pareciam esculpidas à mão.
— Volte a dormir. O que acha que eu vou fazer, devorar você?
Diante da atitude defensiva dela, Henrique Ramos falou em tom ríspido:
— Se o Lelê acordar durante a noite, você pode me chamar.
Sabrina Batista assentiu.
— Tudo bem.
Henrique Ramos encostou-se no batente da porta, exibindo sua postura esguia e musculosa.
— Sabrina, depois de tantos anos ao meu lado, me diz: quais são os meus defeitos?
Aquela pergunta repentina deixou Sabrina Batista totalmente perplexa.
Como os cotovelos com os quais apoiava o corpo começaram a doer, ela decidiu sentar-se por completo.
O celular de Sabrina Batista estava no silencioso. Ricardo Carneiro havia ligado três vezes e ela não escutara.
Quando finalmente percebeu, já haviam se passado duas horas desde as chamadas.
E, nesse meio-tempo, Ricardo Carneiro já havia enviado várias mensagens.
[Sabrina Batista, eu posso te ajudar a lidar com a Família Couto!]
[Acredite em mim, eu posso te dar tudo o que você precisar. Não volte com o Henrique Ramos!]
[O Henrique Ramos nunca entra num negócio para perder. Ele com certeza está armando alguma coisa, não confie nele tão facilmente!]
Henrique Ramos, de fato, não entrava em negócios para perder. E Sabrina Batista sabia disso melhor do que Ricardo Carneiro.
Embora Ricardo Carneiro tivesse se atrasado em oferecer ajuda, mesmo que ele tivesse chegado primeiro, Sabrina Batista jamais conseguiria aceitar a sua assistência com a consciência leve.
Enfrentar a Família Couto já não era algo que pudesse ser resolvido apenas com dinheiro.
Era uma dívida de gratidão que Sabrina Batista não teria a menor condição de pagar.
— O Ricardo Carneiro disse que eu me aproveitei da sua vulnerabilidade e a forcei a algo que não queria. É verdade? — Henrique Ramos quebrou o silêncio mais uma vez.

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