3 MESES ANTES
Katherine estendeu a mão para a maçaneta, mas antes que pudesse abrir a porta, vozes surgiram do outro lado.
— Tem certeza?
Uma pausa. Então, mais baixo:
— O que você quer que eu diga, Ester?
Katherine apertou a maçaneta com mais força.
Ester soltou uma risadinha ofegante.
— Eu só acho engraçado. Você passou anos com ela, e agora ela é obrigada a cuidar de mim. — Uma pausa deliberada, e então, com uma doçura melosa: — Deve ser humilhante para ela, não acha? Ver você aqui. Saber que você está cuidando de mim agora. Ela deve se sentir tão... substituível.
Adonis soltou um suspiro exasperado. —
— Ester, não.
— Não o quê? Só estou dizendo... ela está sendo tão mesquinha sobre isso, quando nós dois sabemos que nem é real. Você só está sendo prestativo, certo? Ela está agindo como se tivesse te flagrado em algum caso tórrido. — Adônis hesitou. Tempo demais. A voz de Ester ficou mais áspera, mais insistente. — Você contou a ela, não contou? Silêncio. Ester estalou a língua, cheia de falsa simpatia. — Ah, Adônis.
A voz de Adônis baixou, como se dizer isso em voz alta pudesse piorar a situação.
— Nunca tive a chance.
Um momento de silêncio. Então, Ester soltou uma risadinha suave e incrédula.
— Quer dizer que ela está remoendo isso, achando que você me escolheu em vez dela? Que você simplesmente a abandonou?
Adonis passou a mão pelo rosto.
— Eu ia contar a ela. Devia ter contado antes de ir embora.
Katherine sentiu o estômago embrulhar.
FLASHBACK
Adonis estava na metade do caminho para o aeroporto quando foi atingido.
Ele não contou para Katherine.
— Merda. — ele murmurou baixinho, segurando o volante com mais força.
Ele tinha a intenção. Sério, tinha mesmo. Mas entre reuniões consecutivas, planejamento para o retiro de negócios e, para ser sincero, evitando o que inevitavelmente seria uma conversa difícil, ele deixou a conversa escapar.
Disse a si mesmo que não importava. Ficaria fora apenas por dois dias. Poderia explicar tudo quando voltasse.
Mas agora, sentado no saguão do aeroporto, com o telefone na mão, seu polegar pairava sobre o nome dela.
O que ele deveria dizer?
“Olá, Kate. Só um aviso: a Ester pediu minha ajuda, e eu aceitei sem te pedir. Não, não pensei em como isso poderia te fazer sentir. Além disso, estarei inacessível o fim de semana todo. Espero que não se preocupe.”
Sim. Isso seria muito bem aceito...
Então ele deixou o momento passar.
Depois outro.
E outro.
Quando ele chegou a Chicago, já fazia tempo demais. Quando o fim de semana terminou, parecia tarde demais.
E então Katherine descobriu por conta própria.
Nenhuma explicação. Nenhum contexto. Apenas a pior versão possível da verdade.
E ele não tinha ninguém para culpar além de si mesmo.
FIM DO FLASHBACK.
Adonis esfregou as têmporas.
— Eu não estava tentando esconder. Eu só... as coisas ficaram complicadas.
Ester zombou.
— Ah, por favor. Você saiu para o fim de semana, não disse nada, e agora ela mal olha para você. E você está surpreso?
Adônis cerrou os dentes.
— Eu devia ter contado a ela. Eu sei disso. Mas isso não significa que ela tinha que presumir o pior.
Ester deu um sorriso lento e cúmplice.
— Ah, Adônis. — Ela inclinou a cabeça, a voz carregada de malícia melosa. — Você realmente não entende nada de mulheres, né?
Sua carranca se aprofundou.
— Que diabos isso quer dizer?
Porque a pior parte?
Ela estava certa.
E isso tornou tudo muito pior.
Katherine ficou paralisada.
Não foi um choque.
Não foi nem uma decepção.
Foi uma realização.
Ester o havia manipulado. E Adônis a deixou.
Não ativamente. Não maliciosamente. Mas a cada momento perdido, a cada verdade não dita, a cada segundo de hesitação. Ele entregou a faca a Ester e a deixou retalhar o que restava deles.
E essa foi a parte que mais doeu.
Porque Ester não era a vilã. Não mesmo.
Não. A verdadeira traição veio do homem que Katherine um dia acreditou que nunca a machucaria daquele jeito.
Seu pulso pulsava contra as costelas, seus dedos se fechando em punhos enquanto ela engolia a amarga verdade. Não era só o fato de Adônis ter cometido um erro. Não era só o fato de ele ter se esquecido de lhe contar.
Era que, no fundo, uma parte dele ainda queria acreditar que Ester não era veneno.
E isso significava que ele sempre a deixaria entrar.
Uma pressão aguda e pungente surgiu atrás dos olhos de Katherine, mas ela se recusou a deixá-la transbordar.
Agora não.
Nunca.
Ela girou nos calcanhares, a respiração firme, as mãos relaxadas, a postura controlada. Se Adônis alguma vez pensasse que a veria desmoronar, se Ester estivesse esperando o momento em que ela desmoronaria, eles morreriam esperando.
Ela fez seu trabalho.
Ela continuaria fazendo isso.
E quando isso acabar ela deixaria os dois para trás.
Para sempre.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido ex, obrigada pela traição