A noite ainda guardava os ecos do riso suave de Hope e os gestos ternos de Dante quando, ao saírem do pequeno restaurante italiano no centro da cidade, os dois foram surpreendidos.
Uma van preta parou abruptamente ao seu lado. Antes que pudessem reagir, panos embebidos em éter cobriram seus rostos. O mundo girou, escureceu, e tudo desapareceu.
Ao acordar, Hope sentiu os pulsos e tornozelos dormentes, amarrados com corda áspera a uma cadeira de metal frio. A cabeça latejava, e seus olhos levavam alguns segundos para se ajustar à penumbra e reconhecer o local: um galpão abandonado, com paredes descascadas e o cheiro úmido de mofo e óleo velho. Ao que parecia estavam em alguma região periférica distante. Ao seu lado, Dante estava igualmente amarrado, ainda grogue, mas já tentando se livrar das amarras.
- Dante ?- ela chamou, a voz ainda rouca e baixa.
- Estou aqui - ele respondeu, com os olhos fixos nela, aliviado por vê-la bem, mas tenso. - Você está machucada?
Antes que Hope pudesse responder, uma luz fluorescente se acendeu do outro lado do galpão, ofuscante. Passos firmes ecoaram no concreto. Uma figura feminina surgiu das sombras. Saltos altos, vestido preto justo na altura dos joelhos, cabelos longos e ruivos, impecavelmente penteados. Era Ellie.
- Então é você? - Hope franziu a testa
Ellie sorriu, mas não havia calor naquele sorriso, apenas cinismo e um brilho frio nos olhos.
- Ah, Ivy… a mulher perfeita. A esposa perfeita. Não sabia que Dante te encontraria aqui… Depois de tudo o que eu fiz por ele!
Extravasando sua raiva, Ellie desferiu um tapa no rosto de Hope, deixando sua bochecha vermelha e marcada.
- Ellie… o que você está fazendo? - Dante empalideceu
- O que eu estou fazendo?! - ela riu, com amargura. - Eu esperei por você durante anos. Apoiei você quando sua ambição era apenas a empresa. Eu transei com você quando sua “perfeita” esposa estava ocupada demais sendo virgem e bajulando a sua família. E o que ganhei em troca? Um “vamos terminar, Ellie. Você não serve para ser minha esposa”.
Ellie dizia amargamente enquanto colocava sobre uma pequena bancada a arma e o canivete de Hope que estavam dentro de sua bolsa.
Hope olhou para Dante, os olhos arregalados.
- Foi você que terminou com ela, Dante? Por mim?
- Terminei com ela logo depois que ela voltou reivindicando o seu lugar. Eu não queria ela em casa. Na sua casa, percebi que te amava. Jurei que nunca mais…
- Logo depois ... - Ellie repetiu, com sarcasmo - foram três meses, Dante. Três meses em que eu acreditei em cada mentira que você me contava sobre “dar um tempo”. Era para eu ser Ellie Salvatore!
Ela com raiva golpeou a cabeça de Dante o deixando tonto. Hope sentiu o coração apertar mas não desviou o olhar.
- Por que nos sequestrar? O que você quer?
- Era para ela estar morta! Eu fiz de tudo para ela morrer! - Ela apontava para Hope com raiva.
Ellie caminhou até ela, inclinando-se, quase sussurrando.
- Quero que ele sinta o que eu senti. Abandonada. Traída. Invisível. Mas mais do que isso… quero que você saiba a verdade. Que o homem que você pensa que ama é um mentiroso. E que, mesmo agora, ele só está fingindo arrependimento.
Dante, com a voz embargada, falou:
- Ellie, por favor… pare com isso. Solte ela, Hope não sabe de nada, ela não se lembra de nada. Ela não tem nada a ver com isso.
- Ah, mas tem, sim - Ellie sorriu, se aproximando de Dante agarrando o rosto dele com força. - Ela é o símbolo de tudo o que eu nunca pude ser. E agora… você vai ver ela se quebrar. Agora ela vai morrer de verdade!
A luz piscou. O silêncio se abateu por um instante. E naquele galpão frio, entre cordas e verdades expostas, Hope e Dante perceberam como Ellie estava fora de seu juízo.
- Você está louca, e não vai conseguir sair daqui impune.
- Cala a boca sua vadiazinha! Era para você estar morta! - deu mais um tapa no rosto de Hope.
- Você se acha a melhor não é?, mas está aí se garantindo porque estou amarrada.
Ellie riu, uma gargalhada alta, com ar de superioridade, debochando de Hope.
- Eu sou melhor que você Ivy, só não me deram esse mérito.
- Se é tão boa, por que não faz sua justiça com as próprias mãos? Anda, me solte e vamos nos acertar de vez.
Dante ouvindo a proposta de Hope, sentiu um frio na barriga. Como Ellie está fora de controle, ele temia pela vida de Hope.
Dante arqueou o corpo contra as cordas, como se tivesse levado um choque. Seu olhar, antes frenético, congelou por um instante e então se enche de dor. Uma flor vermelha se abre lentamente no centro do seu peito, espalhando-se como tinta sobre o tecido da camisa.
- Dante? - Hope murmurou, virando-se lentamente, como se o som viesse de um sonho ruim.
Mas quando vê o sangue, o corpo dele encolhido, os olhos marejados tentando se manter abertos… o mundo desaba.
- NÃO! - O grito dela rasga a sala. Ela solta Ellie e corre até ele, caindo de joelhos. Suas mãos tremem ao tocar seu rosto, seu peito, como se pudesse segurar a vida dele com os dedos. - Dante, não... por favor, não! Olha pra mim! Olha pra mim!
Ela tenta desatar as cordas com dedos trêmulos, chorando sem controle, a voz embargada entre súplicas e soluços. Os olhos de Dante se fecham causando em Hope um pequeno ataque de pânico.
Entre lágrimas ela tentava solta-lo enquanto Giovanni e os outros pegavam Ellie e a amarraram na cadeira que Hope estava.
- Dante! Dante acorda! Olha para mim. Ele está sangrando Gio! Me ajuda!
- Leve-o para o hospital, nós vamos ficar com ela aqui! - respondeu Giovanni, ajudando Hope a levantar Dante.
- Mas e a Ellie?
- Você já pegou ela, vá com ele para o hospital, ele precisa de você.
- Não, eu preciso acabar com ela Gio...
- Agora não, ela está amarrada, olhe para ela - ele apontou- acha que vai sair daqui? Vá com ele para o Hospital, já tem uma equipe te esperando
- O que eu digo?
- Tentativa de assalto, ele te protegeu. Depois eu resolvo o resto.
Com a ajuda de mais dois homens colocaram Dante dentro do carro e Hope dirigiu para o Hospital.
Ao chegar fez exatamente o que Giovanni falou, os médicos o levaram para a mesa de cirurgia, a polícia colheu seu depoimento e depois saíram deixando ela sozinha na fria sala de espera

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