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Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu romance Capítulo 6

Helena passou o restante da festa como se tivesse aprendido a respirar por dentro de uma ferida aberta.

Sorria quando alguém se aproximava. Agradecia os elogios sobre o vestido, aceitava cumprimentos pelo casamento, inclinava a cabeça com educação quando alguma senhora dizia que Dante era um homem raro por preparar uma festa tão bonita para compensar uma falha. Por fora, era a esposa perfeita. Elegante, serena, discreta. Por dentro, repetia cada palavra que havia escutado em italiano como se sua mente fosse cruel demais para deixá-la esquecer.

“Ela tem gosto de emoção.”

“Ela me lembra Helena quando era mais jovem.”

“Helena confia em mim.”

Essa última frase era a que mais doía.

Não porque fosse mentira. Mas porque tinha sido verdade.

Helena confiara nele. Confiara de uma forma quase ingênua para uma mulher que lidava todos os dias com diagnósticos difíceis, com pessoas mentindo por medo, com famílias escondendo sintomas, com pacientes omitindo dores. No hospital, ela sabia ler sinais mínimos. Um desvio de olhar. Uma pausa antes da resposta. Um tremor de mão. Uma mudança na respiração. Mas, em casa, diante de Dante, ela havia se permitido ser menos médica e mais esposa.

Agora, entendia o preço disso.

Dante estava a poucos metros, conversando com um grupo de investidores. Parecia tranquilo de novo. O sorriso seguro voltara ao rosto, a postura impecável, a voz baixa e firme. De vez em quando, olhava para Helena como se quisesse se certificar de que ela continuava ali. E ela continuava.

Por enquanto.

Do outro lado do salão, a jovem de vestido amarelo ria com uma taça na mão. Não era uma risada alta. Era leve, estudada, daquelas que chamavam atenção sem parecerem vulgares. Ela sabia o que fazia. Sabia onde ficar, para quem sorrir, quando olhar para Dante e quando fingir que não olhava.

Helena observou em silêncio.

A garota era bonita. Muito jovem. Devia ter pouco mais de vinte anos. A pele clara tinha aquele brilho de quem ainda não conhecia noites de plantão nem preocupações acumuladas. Os cabelos castanhos caíam em ondas sobre os ombros. O vestido amarelo suave, quase dourado, dava a ela uma aparência delicada demais, como se tivesse sido escolhida justamente para parecer inocente.

Canarinha.

Helena sentiu náusea ao lembrar do apelido.

Foi então que a garota virou o rosto em sua direção.

Os olhos das duas se encontraram.

A jovem sustentou o olhar por tempo demais.

Depois sorriu.

Não havia pedido de desculpas naquele sorriso. Não havia constrangimento. Havia desafio. Havia uma espécie de satisfação fina, quase infantil, como se ela estivesse diante de algo que desejava tomar apenas para provar que podia.

Helena sentiu o coração bater com força.

Aquela mulher sabia quem ela era.

Não era uma amante enganada, dessas que acreditavam em promessas falsas sem conhecer a esposa do homem envolvido. Não. Aquela garota sabia. Estava ali, na festa feita para a esposa traída, usando um vestido claro, sorrindo para o marido alheio e testando os limites da humilhação.

Helena colocou a taça sobre uma mesa antes que seus dedos tremessem.

“Dra. Helena?”

Ela se virou.

Rafael Conti estava parado ao seu lado. O funcionário de confiança de Dante trazia no rosto uma expressão educada, mas havia algo alerta em seus olhos. Talvez tivesse notado sua proximidade da varanda. Talvez apenas fosse cauteloso por natureza. Homens como Rafael sobreviviam por perceber o perigo antes dos outros.

“Rafael”, ela disse, com calma.

“Está tudo bem? Vi que se afastou há pouco.”

Helena sorriu.

“Precisava respirar.”

“Claro. Festas assim podem ser cansativas.”

“Principalmente quando são feitas para compensar erros.”

A frase saiu suave, quase elegante, mas Rafael entendeu. Ela viu no instante em que os olhos dele vacilaram. Foi pouco. Uma falha mínima no controle. O suficiente.

“Dante se importa muito com a senhora”, ele respondeu.

A senhora.

Helena quase riu.

Em italiano, há poucos minutos, Rafael falava da amante do marido dela como quem discutia um problema operacional. Agora, em português impecável, tentava embrulhar a mentira em respeito.

“Você trabalha com ele há quanto tempo?”

“Quase cinco anos.”

“Então deve conhecê-lo bem.”

“Conheço o lado profissional.”

“E o pessoal?”

Rafael demorou apenas um segundo a mais do que deveria.

“O doutor Dante é reservado.”

Helena inclinou a cabeça.

“Reservado. Que palavra delicada.”

Ele apertou os lábios.

“Não quis dizer nada além disso.”

“Eu sei.”

Mas ela sabia que ele quis.

Ou, pelo menos, sabia que havia muito por trás do que ele não dizia.

Antes que a conversa pudesse avançar, uma voz feminina surgiu ao lado deles.

“Helena?”

A jovem de vestido amarelo.

De perto, a semelhança incômoda ficou mais clara. Não era o rosto inteiro, nem algo óbvio o bastante para qualquer pessoa notar. Era o desenho dos olhos. A boca. Um traço na expressão quando sorria. Algo que tocou uma memória antiga em Helena, mas escapou antes de ser identificado.

Rafael ficou rígido.

A garota sorriu como se não percebesse.

“Desculpa interromper. Eu queria muito cumprimentar você.”

Helena olhou para ela em silêncio por um instante.

“Nos conhecemos?”

A jovem pareceu se divertir.

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