Dante não conseguiu se levantar.
Mesmo quando os bombeiros tentaram afastá-lo da fumaça, mesmo quando um dos seguranças se aproximou com as mãos trêmulas e pediu que ele fosse para a ambulância, mesmo quando Rafael chegou correndo e o chamou pelo nome várias vezes, Dante continuou de joelhos no asfalto molhado, encarando a mansão como se pudesse obrigar o fogo a devolver Helena.
A casa ainda soltava fumaça pelas janelas quebradas da ala superior. A água escorria pelos degraus de mármore, misturada a cinzas, pedaços de madeira, vidro partido e flores queimadas de um arranjo que havia sido colocado ali naquela mesma semana. Tudo parecia absurdo. Impossível. Irreal demais para pertencer à vida dele.
Helena não podia estar morta.
Helena não podia ter morrido naquela casa.
Helena não podia ter virado um corpo irreconhecível enquanto ele estava fora, enquanto ele atendia telefonemas, enquanto ele mentia, enquanto ele escolhia mais uma vez não estar onde deveria.
“Dante”, Rafael chamou, ajoelhando-se ao lado dele. “Você precisa sair daqui.”
Dante virou o rosto devagar. Os olhos estavam vermelhos, não apenas pela fumaça. Havia algo quebrado ali, algo que Rafael nunca tinha visto nem nas piores crises da empresa.
“Eu deixei ela lá.”
Rafael engoliu seco.
“Ninguém sabia.”
“Eu deixei ela sozinha.”
“Dante…”
“Eu saí de casa.” A voz dele falhou. “Ela estava dormindo. Eu beijei a testa dela. Eu disse que voltava à noite.”
Rafael não respondeu.
O silêncio foi pior do que qualquer acusação.
Dante passou as mãos pelo rosto, espalhando fuligem na pele. As lembranças começaram a vir em golpes, uma atrás da outra, sem ordem, sem piedade. Helena deitada de costas para ele. Helena sentada à mesa com a caixa branca que ele não abriu. Helena no vestido perolado da festa. Helena perguntando se ele já havia mentido. Helena dizendo que ele podia perder qualquer coisa que não cuidasse.
Ele poderia ter ficado.
Naquela manhã, poderia ter cancelado tudo.
Poderia ter entrado de novo no quarto, sentado ao lado dela, dito a verdade, implorado antes que fosse tarde. Poderia ter desligado o telefone de Bianca. Poderia ter sido marido. Poderia ter sido homem.
Mas saiu.
Saiu porque Bianca chorou, porque Bianca exigiu, porque Bianca disse que precisava vê-lo, que estava se sentindo usada, que não aceitaria ser escondida enquanto ele fingia ter um casamento perfeito. Saiu porque se convenceu de que resolveria rápido. Saiu porque, no fundo, havia se acostumado a deixar Helena esperando.
E agora Helena não esperaria mais nada.
Nunca mais.
O pensamento o atingiu com uma violência física. Dante curvou o corpo, como se algo tivesse sido arrancado de dentro dele. O grito que saiu de sua garganta assustou até os bombeiros.
“Eu quero ver!”
Um comandante se aproximou com cautela.
“Senhor Bellini, não é recomendado.”
“Eu quero ver minha esposa.”
“O corpo ainda precisa passar por identificação formal.”
Dante se levantou de repente, cambaleando.
“Eu disse que quero ver!”
Rafael o segurou pelo braço.
“Não faz isso.”
Dante o empurrou.
“Solta!”
“Dante, escuta. Você não vai aguentar.”
“Você acha que eu estou aguentando agora?”
Rafael ficou sem resposta.
Por fim, permitiram que ele se aproximasse apenas até a ambulância onde parte do procedimento inicial era conduzido. Não mostraram tudo. Talvez por piedade. Talvez por protocolo. Dante viu o suficiente.
Um contorno coberto.
Um lençol.
O cheiro de fumaça impregnado no ar.
Uma mão irreconhecível, escurecida, retirada rapidamente da visão dele quando alguém percebeu que estava exposta.
Dante recuou como se tivesse levado um tiro.
“Não”, murmurou. “Não é ela.”
Ninguém confirmou.
Ninguém negou.
Ele olhou ao redor, desesperado, procurando alguma prova de que aquilo era um erro. Helena poderia ter saído. Poderia estar no hospital. Poderia ter ido a uma farmácia, a qualquer lugar. Talvez o corpo fosse de outra pessoa. Talvez tudo aquilo fosse uma confusão horrível.
Pegou o celular com mãos trêmulas e ligou de novo.
Caixa postal.
De novo.
Caixa postal.

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