Dante não dormiu bem naquela noite.
Helena percebeu pela forma como ele se mexia na cama, pela respiração irregular, pelo modo como acendeu a tela do celular duas vezes antes das três da manhã. Fingiu dormir em todas elas. Manteve o corpo virado para o lado oposto, a mão escondida sob o travesseiro, os olhos fechados, enquanto sentia o peso do olhar dele em suas costas.
Ele estava inquieto.
Não por culpa. Helena ainda não conseguia acreditar nessa possibilidade. Dante não parecia um homem esmagado pelo arrependimento. Parecia um homem incomodado porque algo saíra do lugar. Porque a esposa, antes previsível em sua dor, começava a agir de uma forma que ele não conseguia medir.
Isso a ajudou a entender uma coisa importante.
Dante gostava de saber onde ela estava. Gostava de conhecer seus horários, suas reações, seus silêncios. Gostava de ser o centro da tempestade e também o dono do abrigo. Quando feria, esperava que ela sangrasse perto dele. Quando sumia, esperava que ela continuasse esperando. Quando mentia, esperava encontrar nos olhos dela a mesma confiança de sempre.
Mas Helena não era mais a mesma mulher que havia preparado uma mesa para dois com sapatinhos de bebê dentro de uma caixa branca.
Essa mulher ainda existia em algum lugar dela, ferida, encolhida, tentando entender como o amor podia virar uma sala vazia em apenas algumas noites. Mas outra Helena começava a se levantar. Uma Helena mais silenciosa, mais atenta, menos disposta a entregar o coração para quem o usava como garantia de impunidade.
Ao amanhecer, ela saiu da cama antes que Dante abrisse os olhos.
Tomou banho, vestiu uma calça de alfaiataria cinza-clara, uma blusa branca e prendeu o cabelo com firmeza. No espelho, procurou sinais da gravidez. Ainda não havia nada que o mundo pudesse notar. Apenas ela sabia. Apenas seu corpo guardava aquela vida pequena, secreta, intacta dentro do caos.
Tocou o ventre por poucos segundos.
“Só mais um pouco”, murmurou.
Quando desceu, encontrou Dante na cozinha, algo raro para aquele horário. Ele estava encostado na bancada, segurando uma xícara de café, com o cabelo ainda úmido e a camisa aberta no colarinho. Bonito. Perigoso justamente por isso. A beleza dele vinha acompanhada de uma familiaridade capaz de enganar a memória.
“Você ia sair sem falar comigo?”, perguntou.
Helena pegou uma maçã da fruteira.
“Eu não sabia que você estava acordado.”
“Não dormi direito.”
“Que pena.”
A resposta saiu calma demais.
Dante observou seu rosto.
“Você está diferente.”
Ela quase sorriu. Ele vinha dizendo isso com frequência. A diferença é que agora talvez começasse a perceber sem saber o motivo.
“Estou cansada.”
“Não é cansaço.”
Helena abriu a bolsa e guardou a maçã.
“Então deve ser trabalho.”
“Também não é trabalho.”
Ela olhou para ele.
“Você parece muito certo sobre mim ultimamente.”
Dante deixou a xícara na bancada.
“Eu conheço minha esposa.”
A frase teria sido bonita em outra época. Agora parecia presunção.
“Conhece?”
Ele se aproximou um passo.
“Helena, o que está acontecendo?”
Ela sustentou o olhar dele.
Quase disse. Quase jogou no rosto dele a varanda, o italiano, a canarinha, Bianca Salles, o cheiro doce no colarinho, a ligação no aniversário de casamento. Quase perguntou se ele ainda teria coragem de repetir que a conhecia depois de tê-la usado como escudo para mentir.
Mas não era hora.
“Você está vendo fantasmas porque se sente culpado”, disse.
Dante ficou imóvel.
“Culpado por quê?”
“Por ter estragado nosso aniversário.”
O alívio dele veio rápido demais, quase imperceptível, mas Helena viu.
“Eu já pedi desculpas.”
“Eu sei.”
“E fiz uma festa.”
“Também sei.”
“Então até quando você vai me punir?”
Helena sentiu a raiva subir, mas a manteve sob controle.
“Interessante. Eu fico magoada e você chama de punição.”
“Não foi isso que eu quis dizer.”
“Foi exatamente isso.”
Dante passou a mão pelo rosto.
“Eu não quero brigar.”
“Nem eu.”
Ela pegou a bolsa.
“Tenho uma reunião no hospital.”
“Que reunião?”
“Dante.”

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