Lorenzo Bianchi
Eu tranquei o curso sem pensar duas vezes.
O diretor do programa tentou argumentar, perguntando se era devido à pressão, da carga horária, da distância. Eu só disse que era pessoal — e, por Deus, era. Nunca uma palavra fez tanto sentido quanto essa. Tudo era pessoal agora. Cada minuto longe dela era um segundo a mais em que algo se perdia entre nós.
Comprei a passagem na madrugada, só com a mochila nas costas e a certeza de que, se eu não fosse, perderia a única pessoa que fazia sentido na minha vida.
Camille conseguiu exatamente o que queria. Me envenenou com bebida naquela noite, me fez acordar ao lado dela sem memória alguma do que tinha acontecido. E depois, postou a foto. Escolheu o ângulo, a luz, a legenda. Eu só percebi quando meu telefone explodiu com mensagens do Matteo e depois… silêncio. Silêncio de Aurora. Aquilo doeu mais que qualquer golpe.
E então, soube que só existia uma saída: contar a verdade. Pessoalmente.
Horas depois, o avião pousava em Veneza. O céu nublado combinava com o nó preso no meu peito. Peguei um vaporetto e caminhei com passos incertos até o apartamento dela. Cada ponte que atravessava me fazia sentir mais pesado, como se estivesse marchando contra o tempo, contra a imagem maldita que Camille plantou entre nós.
Quando bati à porta, uma garota foi quem abriu, presumi ser a Suzana, a amiga que ela tanto falou.
Ela me olhou como se eu fosse lixo deixado na porta de casa. E eu entendi.
— Eu preciso ver a Aurora.
— Ela não quer te ver.
— Deixa ela dizer isso, por favor — pedi, com o tom mais humano que consegui juntar. — Me deixa explicar.
Foi quando ele apareceu, vindo da cozinha, e tudo piorou. Só de olhar já sabia que se tratava do Pietro.
— Você tem coragem, mesmo — disse ele, cruzando os braços. — Depois daquela palhaçada? Você acha que vai entrar aqui e dar meia dúzia de desculpas esfarrapadas e tá tudo bem? Ela já sofreu o bastante.
— Não estou aqui pra pedir perdão fácil — rebati. — Estou aqui porque eu amo ela. E alguém armou tudo aquilo. Eu preciso que ela saiba a verdade.
— Ah, claro — Pietro riu, seco. — Foi tudo uma conspiração internacional pra sabotar seu romance, né? Ir para cama com sua ex. Muito comodo, pensou o quê? Em ficar com as duas, só não contava que a outra lá publicasse o romancezinho fajuta.
Eu ia retrucar, mas foi quando ouvi passos.
E então vi.
Aurora.
Com o cabelo bagunçado, olhos inchados de choro, vestindo a camiseta larga que eu já tinha visto nela tantas vezes em nossas conversas noturnas. Ela estava quebrada, e tudo em mim se quebrou também.
Seu nome morreu na minha garganta. Eu queria correr até ela, segurar sua mão, implorar pra que acreditasse. Mas meu corpo travou.
— O que você tá fazendo aqui? — ela perguntou. A voz mais firme do que imaginei que ela conseguiria. Ela era forte. Sempre foi.
— Eu vim te explicar. Porque aquela foto não é o que parece. — As palavras saíram secas, diretas. Sem floreios.
Quando ela cruzou os braços, me senti doze passos atrás. Mas segui. Ela precisava saber.
— Foi uma armação. Eu fui drogado. Camille armou tudo. Eu nunca encostei nela por vontade própria. Eu juro.
Pietro murmurou algo como "ah, claro que foi", mas Susana segurou o braço dele, e — graças a ela — o silêncio se formou de novo. Tenso. Cortante.
— Você espera que eu acredite nisso? — ela perguntou, e doeu. Porque não era uma pergunta. Era um pedido desesperado pra que aquilo tudo fosse mentira.
— Eu não espero nada — respondi. — Só que me escute. Cinco minutos. Depois eu sumo, se for o que você quiser.
Ela desviou o olhar nesse ponto. Vi seus ombros encolherem um pouco. E doeu. Mas continuei.
— Eu não esperei mais nada. Saí da faculdade direto pro aeroporto. Peguei minha mochila, um casaco, o celular e comprei a primeira passagem pra Veneza. Ainda de uniforme da aula de análise sensorial, com cheiro de madeira, vinho e desespero.
Um sorriso irônico escapou, seco.
— Minhas coisas? Mandei por transportadora pra casa da minha mãe, na Toscana. Meus livros, cadernos, até a bicicleta. Não ia voltar. Não antes de falar com você. Não fazia sentido continuar em Nova Iorque fingindo que minha vida ainda estava lá, se tudo o que importava estava aqui.
Aurora me olhou de novo. E havia algo diferente ali. Como se a frieza estivesse começando a ceder espaço para… curiosidade. Ou dúvida. E dúvida, pra mim, já era um alívio. Porque antes havia só certeza. Certeza de que ela nunca mais queria me ver.
— E a faculdade? — ela perguntou, num tom mais baixo.
Assenti com leveza, engolindo a resposta com um pouco de orgulho ferido.
— Já pedi transferência. Estou esperando a aprovação para Florença. Não quero continuar lá. Nova Iorque ficou contaminada. Não era mais sobre vinho, sobre futuro, sobre mim. Era sobre você. Sobre nós. E se não existir mais “nós”, tudo bem. Eu vou aceitar. Mas você merece saber a verdade antes de me apagar da sua história.
O silêncio se instalou entre nós, dessa vez menos hostil. Menos afiado.
Pietro e Susana estavam quietos, quase ausentes agora. Era como se tudo ao redor tivesse parado pra que ela decidisse o rumo do mundo.
Aurora respirou fundo. Pela primeira vez desde que me viu, seus braços descruzaram.
Ela ainda não me perdoou.
Mas ela não me expulsou.
E às vezes, a maior esperança cabe nesse pequeno espaço entre a dor e a dúvida.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Proibida para Mim: Apaixonado pela filha do meu amigo