(Ponto de Vista de Olivia)
Meus olhos se abriram devagar, enquanto uma dor lancinante martelava em meu crânio, de modo que o sedativo não tinha me mantido desacordada por muito tempo e, quando recuperei a consciência, percebi que estava deitada na ampla cama do quarto principal de Jardins Imperiais, com o teto familiar entrando em foco acima de mim.
Logo, as lembranças da noite anterior invadiram minha mente como ondas violentas, trazendo à tona a imagem de Victoria no túmulo de Lily, o líquido preto respingando na lápide da minha filha e os antigos feitiços criados para amaldiçoar o espírito do meu bebê.
Assim, um ódio incandescente percorreu minhas veias, fazendo meu corpo inteiro latejar, e eu estava prestes a me sentar quando a voz de Ethan chegou vinda da varanda.
— Não tenha medo. — Disse ele suavemente ao telefone, de modo que sua voz soou quase estranha aos meus ouvidos. — A noite passada foi um acidente. Não vai acontecer de novo.
Meu corpo se enrijeceu e, naquele instante, soube exatamente com quem ele estava falando.
— Providenciei seguranças para protegê-la. — Continuou, usando um tom gentil que há muito tempo não usava comigo. — Por isso, ela não terá chance de machucar você e a Emma de novo.
Sua voz caiu para um tom mais baixo e, embora eu não conseguisse entender o que ele disse em seguida, já tinha ouvido o suficiente.
“Seguranças… Para Victoria. A mulher que tinha matado minha filha e profanado seu túmulo…”
Uma sensação esmagadora de impotência me invadiu, e o peso que oprimia meu peito se tornou quase sufocante, de forma que eu não poderia mais tocar em Victoria nem fazê-la pagar pelo que tinha feito com Lily.
Então, as lágrimas subiram aos meus olhos e deslizaram silenciosas pelas minhas bochechas, enquanto a certeza de estar verdadeiramente indefesa diante dela me consumia.
Foi então que ouvi Ethan encerrar a ligação e entrar no quarto e, assim que seus passos se aproximaram da cama, o celular dele tocou novamente.
— Maxwell. — Atendeu, sem hesitar. — O que houve?
— Rei Alfa, está tudo pronto. — A voz de Maxwell Chen soou clara. — Acredito que a Luna Winters ficará muito comovida quando ver.
— Ótimo. — Respondeu Ethan, com o tom suavizando levemente.
Mantive as costas viradas para ele, fingindo estar dormindo, e pelos olhos entreabertos vi-o me lançar um olhar antes de se afastar.
— Depois de hoje, ela vai entender que minha compensação por Lily não são apenas palavras vazias. — Murmurou, mais para si do que para Maxwell. — Dessa forma, no futuro, ela deixará de direcionar sua raiva para Victoria e Emma por causa da Lily.
Ele encerrou a ligação e saiu do quarto sem dizer mais nada.
Compensação? Para a Lily? O que ele pretendia com isso? Independente do que fosse, aquilo não devolveria minha filha, nem traria justiça à mulher que lhe tirou a oportunidade de viver.
Nesse instante o toque do meu celular me arrancou dos pensamentos, e, com um movimento pesado e lento, estendi a mão até o criado-mudo para pegá-lo.
— Sra. Winters? — Uma voz feminina suave ecoou pelo alto-falante. — A senhora tem tempo para vir hoje?
Era a Dra. Rebecca Winters, minha psiquiatra, sem qualquer vínculo de parentesco, apesar do sobrenome semelhante. Ela era especialista em traumas emocionais de lobisomens.
“Quem eu poderia contar que Victoria tinha matado Lily?” Eu não tinha parentes, já que minha mãe adotiva tinha falecido anos atrás, e meu único amigo de verdade, James Knight, estava em treinamento fechado para a corrida que se aproximava, de modo que eu não poderia sobrecarregá-lo com isso.
James tinha amado Lily como se fosse sua própria filha e, se soubesse que Victoria a tinha matado deliberadamente, certamente iria atrás dela, e se a machucasse, Ethan o destruiria, de modo que James não perderia apenas a chance de competir no campeonato do próximo ano, como talvez jamais voltasse a correr.
No fim das contas, correr era o sonho de James, e eu não poderia arruiná-lo.
Quanto a Lucas Blackwood, nosso relacionamento não passava de um fingimento… Portanto, não éramos próximos o suficiente para esse tipo de confidência.
Assim, carreguei o fardo sozinha, permitindo que o remorso por ter falhado com Lily, a necessidade ardente de justiça e o ressentimento pela cegueira de Ethan e pela crueldade de Victoria me esmagassem como um peso físico.
A psiquiatra tinha me pedido para encontrar alguém que aliviasse minhas emoções prestes a entrar em colapso, e a única pessoa que me ocorreu foi a Matriarca Evelyn Stone, que permanecia inconsciente no Abrigo Médico.
Ela era uma das poucas pessoas que tinham me protegido e amado e, por estar em coma, eu não precisaria me preocupar que ficasse aflita ao saber que Victoria tinha matado Lily.
Logo, estacionei o carro no Abrigo Médico do Bando Crista de Prata e fui direto para o seu quarto, onde a idosa permanecia imóvel, respirando de forma estável, embora fraca.
Margaret Shepherd ergueu os olhos quando entrei, e seu rosto bondoso se contraiu de preocupação ao me ver.
— Sra. Winters, a senhora não dormiu bem por estar preocupada com a matriarca? — Perguntou ela. — Fique tranquila, estou aqui para cuidar dela…

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